Das Mädchen in Rot - Chpt 12 [Portuguese - BR]
Das Mädchen in Rot [Portuguese - BR]
Descrição:
Das Mädchen in Rot (Alemão: A Garota de Vermelho) é uma adaptação sombria da história original escrita por Charles Perrault e os Irmãos Grimm. A adaptação conta a história de Nella, uma jovem que vivia com sua família em uma tribo e cujo pai foi morto por um Ser-Lobo negro (é como as tribos chamam os lobisomens) enquanto ele e um amigo salvavam a jovem Nella. Após atingir a maioridade, Nella foi convocada para fazer parte de um culto onde as mulheres adultas vestem um manto vermelho e partem da tribo para a casa da Grande Mãe para receber a benção dos ancestrais, a fim de manter os Seres-Lobo longe da tribo. De acordo com a Anciã, a casa da Grande Mãe fica nas profundezas da floresta — o mesmo lugar onde os Seres-Lobo e outras criaturas terríveis espreitam, atacando os visitantes que se aventuram sem um pingo de cautela.
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Introdução:
Há cerca de quinze Luas Cheias, uma antiga tribo vivia numa região onde viria ser uma floresta. Essa tribo era conhecida por venerar uma entidade mística cuja forma lembra um lobo.
Quando a primeira Lua Vermelha surgiu no céu, o povo daquela tribo começou a se transformar na imagem da entidade. Ninguém sabia o que aconteceu para eles se tornarem a imagem da entidade, mas diziam que o vento carregava vários uivos pelo mundo inteiro.
Uma noite, um pequeno grupo de caçadores adentraram na floresta à procura de comida. E quando avistaram o primeiro cervo para levá-lo à tribo, um enorme vulto apareceu e devorou três dos caçadores que entraram naquele lugar, restando apenas um deles para contar o que aconteceu. Ele disse que a criatura que matou os outros que foram com ele tinha a forma de um homem, mas a cabeça e pelos de um lobo.
E foi naquele dia que a tribo passou a temer a criatura lobo que atacou o nosso povo na floresta.
Capítulo 12
Nella e William pararam diante do grupo de caçadores. Eram homens da tribo onde ela nascera, rostos endurecidos pelo tempo e pela floresta, armados com lanças, machados e escudos. Entre eles, um homem mais velho deu um passo à frente. Johann.
O reconhecimento foi imediato. A expressão dele se suavizou, carregada de nostalgia.
“Nella.”
A voz ecoou dentro dela como algo distante e familiar ao mesmo tempo. Os olhos de Nella se arregalaram. Por um instante, voltou a ser a menina de anos atrás, vendo aquele mesmo homem atravessar a porta de sua casa.
“Johann…” sussurrou, a voz falhando.
Uma lágrima escapou. Johann sorriu, observando a jovem mulher de capa vermelha que agora estava diante dele.
“Como você cresceu. Agora já é uma mulher. Seu pai ficaria muito orgulhoso de ter tido uma filha tão bonita quanto você.”
Nella não hesitou. Avançou e o abraçou com força, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto.
“Johann… eu estou feliz de te ver.”
“Eu também, Nella. Eu também.”
William permaneceu em silêncio ao lado, de braços cruzados, observando a cena com expressão sóbria. Os demais caçadores não interferiram.
“Eu sinto tanta falta dele.” murmurou Nella contra o ombro de Johann.
“Eu sei. Eu também. Stephen era um bom homem e um grande amigo. Ele queria que você tivesse um futuro melhor, ao lado da sua mãe. Fez de tudo para te proteger… assim como eu fiz por Juliet.”
Eles se afastaram um pouco. A saudade ainda pesava no peito de Nella quando a pergunta escapou, aflita: “Por que você não o salvou?”
Johann baixou o olhar por um momento.
“Eu queria. Quando te encontramos na floresta, e aquele Ser-Lobo estava prestes a avançar sobre você… eu queria ficar. Mas seu pai me pediu para te proteger. Para te levar de volta à tribo. Se eu tivesse ficado, você provavelmente não teria sobrevivido sozinha. Não com aqueles coisas à solta.”
William quebrou o silêncio pela primeira vez.
“Coisas?”
Os caçadores tencionaram imediatamente. Johann olhou para o rapaz com uma sombra de desconfiança.
“Coisas que vocês chamam de Seres-Lobo. Histórias antigas de monstros para assustar crianças e mantê-las longe da floresta.”
“Quem é você?” perguntou Johann, direto.
“William. Estou acompanhando ela desde o dia em que entrou na floresta.”
“Ele é meu guia e meu guardião.” completou Nella. “É uma longa história.”
“Tenho certeza que é.” respondeu Johann, voltando o olhar para ela. “Mas agora não é o momento. O que importa é tirar você deste lugar.”
Nella hesitou. A mão apertou a alça da capa vermelha.
“Johann… eu não posso voltar.”
Ele franziu o cenho.
“Nella, a Grande Mãe está morta. Aquela cerimônia insensata acabou.”
“Eu sei. Estive na cabana dela. Sei que os lobisomens a mataram.”
“Lobisomens?” repetiu Johann, confuso. Os outros caçadores trocaram olhares.
“É outro nome para os Seres-Lobo.” explicou William.
Johann exalou pesadamente. “Ser-Lobo, lobisomem… tanto faz. O que importa é a sua segurança. Eu não vou deixar você ficar aqui para ser morta por essas coisas.”
“Eu tentei impedi-la desde o primeiro dia.” comentou William, ainda com os braços cruzados. “Mas ela é teimosa.”
Nella lançou-lhe um olhar de lado, mas não retrucou. Em vez disso, voltou-se para Johann e desembainhou a espada Matador de Lobos, deslizando para fora do invólucro de madeira e couro em um som cortante bem agudo. Ela ergueu a espada para o alto. O aço prateado do Matador de Lobos brilhou sob a luz filtrada da floresta.
“William e eu encontramos uma forma de derrotar o líder deles.”
Vendo o artefato na mão dela, os caçadores ficaram espantados. Uns falavam uns com os outros, e os rostos deles diziam por si só. Johann, por sua vez, fixou os olhos dele na lâmina prateada, o rosto mudando por completo.
“Essa lâmina…” começou ele em voz baixa.
Nella manteve a arma na mão erguida para o alto, abaixando-a até a ponta ficar alinhada ao chão.
“Com esta espada, temos uma chance de enfrentarmos os lobisomens e derrotar o Alfa!” disse Nella, com determinação e coragem emanando do coração. “Não somente podemos salvar a minha família, lar e tribo, como também vamos salvar diversas outras pessoas que entraram nesta floresta e nunca mais retornaram!”
Ouvindo aquelas palavras, os caçadores murmuram uns com os outros, mas mantendo a atenção na jovem garota. Johann estava perplexo com aquilo, até ver um gesto de William com a mão esquerda, sinalizando de que Nella não era mais uma menininha assustada. Era uma mulher forte e corajosa.
“Johann, sei que você insistiria de que eu deveria voltar pra casa.” disse ela, aproximando-se do colega do pai dela. “Mas receio que não posso. Eu tenho que fazer isso. Preciso derrotar o Alfa com esta espada!”
Não havia mais palavras que ele pudesse buscar para falar. Em vez disso, ele soltou um leve suspiro de preocupação de que ela arriscaria a vida dela para enfrentar os lobisomens e o Alfa.
Antes que pudesse terminar, um jovem caçador chegou correndo entre as árvores, ofegante e o rosto sujo de terra e sangue seco.
“Johann, os Seres-Lobo atacaram o grupo de Ulfric!” Gritou ele para o conhecido de Nella. “Estão sendo sobrepujados perto das pedras negras!”
O silêncio caiu pesado. Johann cerrou a mandíbula. William, ao lado de Nella, já endireitou a postura.
“O Alfa está lá!” disse o companheiro de Nella, seco. “Se ele saiu do covil, é porque sente que a Lua Cheia está próxima. É um adversário formidável. Perigoso demais para qualquer grupo despreparado.”
Johann olhou para Nella, depois para a espada ainda na mão com relação à fala de William sobre o Alfa.
“Você realmente pretende enfrentar aquilo?”
Nella não baixou a espada. Segurou o cabo do Matador de Lobos com força, determinada de que este era o destino dela.
“Eu não vim até aqui para correr. Eu vou lutar, mesmo que isto custe a minha vida.” Respondeu ela.
William deu um passo adiante. “Temos que ir até onde eles estão. Se o Ulfric ainda estiver vivo, precisamos chegar antes que o Alfa termine o que começou.”
Johann hesitou apenas um segundo. Depois assentiu, o olhar endurecido.
“Muito bem. Vocês dois vêm conosco. Mas se aquilo se tornar impossível… não terei outra escolha, a não ser tirar a Nella dali. Com ou sem a sua permissão, William!”
O garoto balançou a cabeça pra frente, sem dizer uma palavra. Ninguém discutiu. Sem mais nada a dizer, o grupo de caçadores, Johann e os dois aventureiros seguiram correndo até onde Ulfric estava.
////
O grupo se moveu rápido pela floresta. O cheiro de sangue e pelo molhado ficou mais forte a cada passo. Com o anoitecer se aproximando, o instinto primitivo de William começava a aflorar. O olfato apurado captava cada gota de sangue dos caçadores e dos Seres-Lobo, e os pelos finos de seus braços já se tornavam grossos e visíveis sob a luz cada vez mais fraca.
Nella notou. Sem dizer nada, alcançou a mão dele e apertou com firmeza. William virou o rosto para ela. Os olhos dele já carregavam um brilho diferente, mais animal. Nella balançou a cabeça devagar, a expressão serena, mas a testa levemente franzida.
“Nós vamos enfrentar ele, William. Fica calmo.”
Ele demorou um segundo para responder. Quando falou, a voz saiu baixa e grave, quase sem emoção.
“Nella… saiba que, mais cedo ou mais tarde, eu vou sucumbir a esta maldição. Vou me tornar um monstro igual a eles. E quando isso acontecer… você precisa fazer o que for necessário.”
A mão dela apertou a dele com mais força.
“Não.”
A palavra saiu firme, quase um corte.
“Eu não vou fazer isso.”
William segurava o olhar dela, sério.
“Se eu perder o controle de verdade… se eu tentar te machucar…”
“Então eu te trago de volta”, interrompeu ela, a voz baixa, mas inabalável. “Do jeito que for. Mas eu não vou te matar. Não peça isso a mim.”
Por um instante, os dois ficaram em silêncio, as mãos ainda unidas enquanto caminhavam. Johann, alguns passos à frente, lançou um olhar por cima do ombro, notando o tom sombrio da conversa. Os outros caçadores também perceberam, mas ninguém interrompeu.
A Lua já começava a subir entre as árvores.
William ainda segurou a mão de Nella por mais alguns passos, como se aquele contato fosse a única âncora que o mantinha humano. Por fim, soltou-a devagar. Não disse mais nada. Apenas assentiu uma vez, curto, e voltou o olhar para a frente.
Johann observava os dois pelo canto do olho, o cenho franzido. Não perguntou. Talvez tivesse entendido o suficiente só pelo tom da conversa.
O grupo acelerou o passo. O cheiro de sangue ficou mais espesso. Misturado a ele vinha o odor pesado de pelo molhado e terra revolvida. Os sons da floresta foram sendo substituídos por outros: gritos abafados, o impacto de metal contra carne, uivos curtos e raivosos. A cada metro, a tensão entre os caçadores aumentava. Alguns apertavam os cabos das armas com força demais. Outros lançavam olhares inquietos para o céu, onde a Lua Cheia já se mostrava quase por completo entre as copas.
William caminhava em silêncio, mas Nella notava as pequenas mudanças. Os ombros dele estavam mais tensos. A respiração, mais funda. De vez em quando os dedos se contraem, como se as garras quisessem nascer dali.
Ela não comentou.
Depois de mais alguns minutos de marcha rápida, o terreno começou a mudar. As árvores se rarearam. A terra deu lugar a pedras escuras e irregulares que se erguiam do solo como dentes quebrados. O ar ali era mais frio e carregava o cheiro metálico de sangue fresco.
Johann ergueu a mão, ordenando que o grupo parasse. William parou ao lado de Nella. Os olhos dele já não eram completamente humanos.
“Chegamos.” murmurou o jovem garoto de cabelo castanho. Pelos espessos que tomavam os braços ficaram visíveis.
À frente, entre as formações rochosas negras, a batalha já estava em andamento.
“Ali!” gritou um dos caçadores armados com lanças.
A cena era caótica. Caçadores lutavam desesperadamente contra várias formas lupinas. Corpos de homens e de Seres-Lobo jaziam espalhados pelo chão de pedra. No centro da confusão, um homem alto e robusto, Ulfric, ainda mantinha um pequeno grupo em formação, a espada manchada de preto, o rosto coberto de sangue e suor.
“Lá está o Ulfric!”
“Vamos, homens!” gritou Johann, puxando a espada da bainha e erguendo sua arma na direção do líder. “Ulfric precisa de nossa ajuda! Avancem!”
Os demais caçadores gritaram moralizados, correndo atrás de Johann na direção da batalha. Os outros Seres-Lobo captaram a presença deles, direcionando a atenção deles nos novos agressores. Ulfric e os sobreviventes se uniram ao grupo que chegou, com os números se recuperando de imediato.
Nella viu aquela cena sangrenta. Corpos de homens mortos no chão, com membros decepados e marcas de garras e dentes perfurando eles e o cheiro de sangue deixando o local difícil de suportar.
Em vez de ser tomada pelo medo e pelos horrores, Nella retirou a espada Matador de Lobos e correu na direção deles. Sentiu o peso familiar do Matador de Lobos na mão enquanto desviava de uma garra.
William lutava ao lado dela com precisão fria, quase animal. Johann cobria o flanco esquerdo, o machado girando em arcos amplos enquanto corria em direção ao líder do grupo principal, desviando e atacando os agressores que vinham na direção dele.
“Ulfric!”
“Johann! Graças aos Espíritos!” Respondeu o caçador com o corpo banhado de sangue. “Achei que vocês não fossem vir para nos ajudar!”
Os dois homens se juntaram em armas, enfrentando os lobisomens naquele lugar caótico e sanguinário.
“Encontraram a garota?!” Perguntou Ulfric, mantendo a espada na mão, atravessando o peito de um lobisomem de pelos cinzas.
“Encontramos! Ela estava bem acompanhada quando a encontramos!”
Ao dizer aquilo, Ulfric olhou para ela, enfrentando em pé de igualdade com os demais caçadores, atingindo os lobisomens com o Matador de Lobos. Cada golpe desferido era uma agonia aterrorizadora para os seres de cabeça lupina. Junto estava William, agarrando um dos monstros pela garganta, arrancando um pedaço de carne com as unhas grandes e afiadas.
“Ela é forte e corajosa, Johann!”
“Sim. Nella encontrou o Matador de Lobos. Talvez tenhamos uma chance para enfrentarmos o Alfa!”
A batalha se estendeu por todo o terreno. Vários caçadores e lobisomens lutavam ferozmente, com os dois lados sofrendo baixas. À medida que a Lua Cheia subia aos poucos no céu, os Seres-Lobo ganhavam um pouco mais de força, ao mesmo tempo ficaram mais agressivos.
Gritos de homens ecoavam em meio àquela carnificina. Corpos dilacerados, marcas de mordidas e arranhões tornavam aquela cena cruel o bastante aos olhos de Nella.
Johann e Ulfric se reuniram, chamando os demais caçadores, Nella e William, para se juntarem a eles. O grupo de caçadores que antes era vasto e numeroso, agora reduziu por volta de vinte e nove homens.
A batalha nas pedras negras ainda ecoava quando o uivo longo e grave cortava o ar. Não vinha dos Seres-Lobo que já estavam lutando. Vinha de mais fundo, das sombras entre as pedras mais altas.
Os Seres-Lobo pararam de lutar quase no mesmo instante. Os caçadores, ofegantes e cobertos de sangue, mantiveram as armas erguidas, esperando o próximo ataque que não veio. O silêncio que se seguiu foi pior do que o barulho da luta.
Nella ofegava enquanto mantinha a espada prateada nas mãos. Johann e William estavam do lado dela, mantendo os dois flancos dela protegidos. Viram os monstros recuarem em passos lentos, dando ao grupo um respiro. Um lobisomem de pelos prateados e marcas vermelhas deu um passo à frente, a voz rouca e clara:
“O Alfa deseja vê-los. Apenas a garota e o rapaz.”
Ouvindo aquilo, William endureceu. Este era o momento em que encontraria seu progenitor. Mas também seria o momento em que Nella seria tomada por ele se não usasse a espada para matá-lo.
Nella sentiu o coração acelerar. Os olhos arregalaram por um momento. Quando avançava um passo, Johann colocou a mão dele na frente, travando-a por um segundo.
“Johann…” murmurou ela assustada.
“Eu não vou deixar vocês irem sozinhos.” disse o caçador, com a voz baixa e firme. “Eu vou com eles!”
O lobisomem rosnou ferozmente. “Não! O Alfa só quer a garota e o rapaz! Nem mais ninguém!”
“Então eu não vou permitir que eles vão!” Desafiou Johann.
Os lobisomens rosnaram, mostrando as presas. Antes que a situação escalasse, a voz do Alfa ecoou das profundezas, grave e autoritária:
“Deixem o caçador ir com eles!” disse a voz do Lobisomem Alfa. Aquilo fez com que o de pelos prateados e marcas vermelhas e os outros da mesma espécie aguardassem por uma nova ordem.
Os Seres-Lobo abriram caminho imediatamente, formando um corredor estreito entre as pedras negras. O cheiro de sangue fresco e pelo molhado ficou ainda mais forte.
Johann se aproximou de Ulfric por um instante. Expressava um certo receio de que não teriam chances de retornar com vida.
“Ulfric, se não voltarmos… tire a Nella daqui. Não importa o que aconteça.”
“Faremos o que for preciso para tirá-la de lá e voltarmos para a tribo.” Assentiu Ulfric, colocando a mão esquerda dele no ombro esquerdo de Johann, sendo respondido com um balançar de leve com a cabeça.
Os três viajantes seguiram andando com os lobisomens em direção ao interior daquele lugar sombrio. Ulfric e os demais caçadores ficaram para trás, com poucos ficando para vigiá-los no caso de tentativa de intervenção e resgate.
Nella olhou por um instante para Ulfric, com o tamanho diminuindo conforme distante eles ficavam atrás dele.
“Não adianta se preocupar por eles, Nella.” chamou William. O olhar dele era frio e fixo para frente.
Ouvindo aquilo, a atenção dela mudou-se para ele.
“Não importa o que aconteça. Eventualmente eles vão de encontro com a morte certa.”
“Nós vamos derrotar o Alfa, William! Só assim é que podemos colocar um fim neste conflito e salvar a todos nós!” Respondeu a garota da capa vermelha ainda resoluta.
“Não vai ser tão fácil assim. O Alfa é o ser mais forte de todos os lobisomens desta matilha. Muitos tentaram e muitos falharam.”
Johann assistia os dois jovens viajantes conversando sobre o futuro de Ulfric e do grupo, e sobre o adversário que vão enfrentar.
“Nem mesmo você que esteja carregando a espada Matador de Lobos seria capaz de derrotá-lo. Ele te dominará no primeiro instante para tentar acabar com ele.”
O silêncio do caçador cessou-se ao ouvir aquela fala, sobre o Alfa dominar Nella no primeiro instante.
“Eu não permitirei que isso aconteça, William! Eu preferiria que ela esteja longe deste lugar amaldiçoado do que viria mais uma vítima destes monstros!”
Ouvindo aquilo, os olhos frios do garoto-lobisomem mudaram na direção dele.
“Independente do que faça, Johann, o Alfa virá atrás dela ou de qual outra Garota de Vermelho que vocês têm sacrificado nesta Grande Viagem.”
“E você pelo jeito sabe muito sobre ele e esses monstros.” Respondeu Johann com a testa cerrando e o olhar sério em William. “Tenho a impressão de que você cresceu em lugar inóspito como esta floresta, ainda mais com eles.”
Nella olhava um para o outro. A conversa entre os dois homens estava ficando um pouco cruel, com o garoto prestes a balançar o braço já peludo e as unhas afiadas se transformando em garras.
“Você não faz ideia dos horrores que eu já testemunhei com o Alfa e os semelhantes dele.”
Vendo aquele braço, Johann e Nella ficaram espantados. A Lua Cheia afetava os sentidos de William.
“Você… você é um deles?!” disse o caçador assustado.
Antes que a situação se escalasse, Nella interveio, colocando-se na frente de William.
“Já chega disso, vocês dois! Sim Johann, o William é um lobisomem, mas ele não é nosso inimigo!” respondeu a garota com a espada na mão e com os braços abertos.
“Nella, você tem ideia no que ele é capaz de se transformar em uma dessas coisas monstruosas?”
“Eu sei disso. Mas eu não vou permitir que ele se transforme em um monstro e eu tenha que matá-lo. Eu sei que ele consegue resistir a isso!”
Terminando de falar com o amigo do pai dela, Nella virou-se para William.
“William, eu sei que talvez não haja esperança de voltar e que o Alfa possa matar a todos nós e me tomar como vítima dos planos malignos dele! Mas eu posso provar que não vai acontecer!”
“Nella, sempre sendo a criatura mais teimosa que já conheci desde o dia que entrou neste lugar. Mas eu vejo que você nunca muda.”
“Saiba que foi a minha teimosia acabou nos levando até aqui. Eu nunca desisti de continuar com a Grande Viagem, mesmo que se mostrou uma realidade cruel e fria. Você nunca desistiu de mim quando eu mais precisei e nem de quando a Hvit se sacrificou por nós. Nós vamos sair dessa, juntos!”
Ouvindo aquilo, os dois estavam quietos perante a fala de Nella. Antes de continuarem a conversa, os lobisomens chamaram eles.
“Continuem andando, vocês três!”
“O Alfa não pode esperar mais!”
William assentiu com a fala deles. Sem dizer mais nada, tornou a andar novamente. Johann e Nella seguiram andando com ele na frente.
////
Os três seguiram adiante, escoltados pelos lobisomens. A cada passo, o terreno mudava. As árvores rareavam. A terra deu lugar a rochas pontiagudas e escuras. Ossos de animais e humanos apareciam entre as pedras, alguns antigos, outros ainda com restos de carne.
O ar ficou mais frio. Mais pesado.
William caminhava na frente, os ombros tensos, os pelos dos braços já bem visíveis sob a luz da Lua que subia. Nella apertava o cabo do Matador de Lobos com força. Johann mantinha a lança pronta, o olhar atento a cada sombra. Ninguém falava.
Quando finalmente atravessaram a última formação de rochas, o covil se abriu diante deles: uma clareira cercada por pedras negras, o chão era tomado por rochas negras e pontiagudas, entremeadas de ossos: cervos, aves, javalis, cabras… e humanos.
O cheiro de sangue antigo pairava no ar como uma presença viva. Nella tentou ignorá-lo, mas o estômago se contorceu mesmo assim.
No centro da clareira erguia-se um altar de pedra. Sobre ele, a estátua do Grande Lobo observava tudo com olhos vazios. William reconheceu o lugar imediatamente, como sendo aquele onde o Alfa realizava as cópulas sombrias com as primeiras Garotas de Vermelho capturadas durante a Grande Viagem.
A Lua Cheia subia mais um pouco. Uma dor aguda percorreu o ventre de William. De trás da estátua, um uivo longo ecoou. Outros responderam em uníssono ao redor deles.
“Vocês chegaram.” disse uma voz grave, quase satisfeita. “Um velho caçador… um jovem lobisomem… e uma garota de capa vermelha.”
Os três se tencionaram. Nella arregalou os olhos. William permaneceu imóvel. Johann girou o corpo, tentando localizar a origem da voz.
“Vieram de tão longe até aqui. Estou genuinamente feliz por terem vindo.”
“Onde você está?!” gritou Johann.
Nenhuma resposta imediata. Em vez disso, os outros Seres-Lobo emergiram das sombras, formando um círculo ao redor deles. Presas à mostra, garras preparadas, posturas de ataque.
Foi então que a figura surgiu por trás da estátua.
Um homem alto, de cabelos e barba brancos como neve antiga. Olhos verdes que brilhavam com inteligência cruel. Vestia casacos de pele marrom-escura que cobriam quase todo o corpo. O antigo Chefe da tribo de Nella.
“Chefe…?” a voz dela saiu baixa, incrédula.
O homem sorriu de leve.
“Nella. Você realizou a Grande Viagem sem hesitar e sem questionar. Estou orgulhoso de você.”
A confusão tomou conta dela. O Chefe estendeu a mão esquerda.
“Venha.”
William reagiu na hora. Segurou o braço de Nella antes que ela desse qualquer passo.
“Nella. Não faça isso.”
O Alfa lançou um olhar de desaprovação ao jovem.
“Por quê?”
“Acredite em mim.” murmurou William. “Isso não vai acabar bem se for com ele.”
O olhar do homem de cabelos brancos pousou sobre ele. Uma sensação antiga e desagradável subiu pela espinha de William.
“Castanho…”
O nome ecoou como um golpe. William congelou. Algo primitivo e terrivelmente familiar começou a se agitar dentro dele. Uma breve lembrança emanou na mente do rapaz do tempo que o viu pela primeira vez.
“Pai…”
Johann franziu o cenho, sem compreender.
O Alfa deu um passo à frente. Sob a luz da Lua, os pelos brancos do dorso de sua mão brilharam por um instante.
“Meu sangue… meu filho. Depois de tanto tempo, você voltou.”
O silêncio que se seguiu pesou mais do que qualquer rugido. Nella virou o rosto lentamente para William. Ele não negou. Não explicou. Apenas apertou os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
“Espera…” Johann quebrou o silêncio, a voz embargada de confusão. “O Chefe é o pai do William?”
O homem de barba prateada voltou o olhar para o caçador.
“Vejo que você não mudou muito desde a última vez que nos vimos na tribo, Johann. Ainda assim, fico feliz que tenha optado por se juntar a nós.”
Os dentes de Johann cerraram. Para ele, era inconcebível que o Chefe tivesse abandonado a tribo para viver naquele lugar sinistro.
“E espero que o Ulfric e os demais caçadores estejam em boas mãos lá atrás.”
Nella ainda tentava processar tudo.
“Chefe… eu não entendo. Isso faz parte da Grande Viagem?”
“Tudo isso faz parte, minha cara Nella. Sei que você tem muitas perguntas. E talvez eu devesse ter contado antes…”
Os olhos dela permaneceram fixos nele, frios de surpresa.
“No entanto, existem segredos que não devem ser revelados. Mesmo quando alguém está pronto para ouvi-los.”
William encarou o progenitor. No olhar do Alfa havia algo pior do que fúria: reconhecimento… e posse.
“Mas isso já não importa mais.” A mão do Chefe se ergueu novamente na direção de Nella. “Venha até mim. Entregue a espada. Podemos terminar aquilo que a Anciã começou.”
Nella olhou para a mão peluda e depois para os olhos dele. Ouvindo o conselho de seu companheiro, recuou.
“Não. Eu não posso.”
“Não adianta hesitar. Você está predestinada a superar os fracassos das outras Garotas de Vermelho. Predestinada a se entregar de bom grado aos Espíritos.”
“Espíritos?” William cortou a fala de seu progenitor, a voz carregada de desprezo. “Não. Você pretende usar a Nella para repor a prole que perdeu… e depois sacrificá-la da mesma forma que fez com a minha mãe!”
Johann e Nella ficaram horrorizados. Os lobisomens ao redor rugiram de raiva diante do desafio aberto. Várias garras se ergueram, prontas para atacar, mas o Alfa ergueu a mão e os deteve com um gesto.
“Não ouse me desafiar, Castanho! Seus irmãos arriscaram a vida para localizar vocês dois nessa floresta… só para você me enfrentar desta maneira!”
“Prefiro a morte a vê-la naquele altar com você em cima dela!” retrucou William, os olhos já começando a mudar.
A matilha rugiu de novo. Johann olhava ao redor deles. A segurança da Nella ainda era prioridade.
“Chefe, estas criaturas estão assustando a pobre Nella. Façam elas pararem de uma vez!”
Ouvindo aquilo, o homem de barba prateada riu, com os olhos fechados e as costas se mexendo seguido de uma explosão de risos malignos. Foi o suficiente para deixar o caçador nervoso e com um gosto amargo na boca. Nella estava assustada e o olhar de William demonstrava temor.
“Johann, você acha que eles obedeceriam tal ordem, cujas palavras vieram de uma presa fácil como você?”
Aquela reação do Chefe diante do pedido de Johann ecoou por toda a floresta. Ulfric e os outros caçadores puderam até ouvir no lugar em que ainda estavam.
Johann colocou a mão no ombro de Nella e falou baixo, urgente:
“Nella, detesto admitir… mas o seu amigo está certo sobre uma coisa: isto não vai terminar bem. Precisamos sair daqui.”
Mesmo no tom baixo, o antigo Chefe ouviu.
“Receio que eu não possa deixar você fazer isso, Johann.”
A fala caiu como uma sentença. Mesmo com aparência idosa, os sentidos daquele homem eram tudo menos humanos.
“Acabaram por selar o destino de vocês ao entrarem neste lugar. E se tentarem fugir, não somente iremos perseguir vocês como também vamos acabar com Ulfric, os homens dele e as diversas tribos lá fora.”
Ouvindo aquilo, os olhos de Nella se arregalaram.
“Mamãe…” disse ela assustada em seus pensamentos.
“Porém, eu deixarei vocês irem, se a Nella concordar em ir até a mim.”
O caçador olhou para a filha do antigo amigo dele que há muito tempo se foi ao protegê-la do Lobisomem de Pelos Negros. Gotas de suor escorriam do rosto ao olhar com temor em deixá-la ir com o Alfa. O rosto dele abaixou por um segundo.
“Chefe, existe algo que me deixou inquieto. Como alguém que prezava na segurança da nossa tribo poderia ter deixado ela para vir aqui, neste lugar sombrio? Por acaso a Anciã está ciente disso?!”
Ouvindo aquilo, Nella ficou ainda mais preocupada. A Anciã era a única figura que tinha autoridade sobre a tribo, superando até mesmo o Chefe. Mas o que não sabiam é que ela estava morta, assim como as outras três pessoas que tentaram detê-lo após ter matado a líder espiritual.
“A Anciã não faz parte dos planos, Johann.”
“Não faz?! Como assim?!”
Os olhos do Chefe se fecharam por um momento.
“Ela está morta.”
A frase caiu como uma pedra. Nella ficou parada. Por um segundo, o ar parecia ter sumido dos pulmões dela. A espada Matador de Lobos tremia levemente na mão. As lágrimas vieram rápidas, escorrendo quente pelas bochechas antes que ela conseguisse controlá-las.
“A Anciã… está morta?!” a voz saiu baixa, quase quebrada. Os joelhos cederam com o peso do corpo.
William deu um passo à frente, os olhos já mais selvagens.
“Você a matou!” gritou William.
O Alfa não negou. Apenas observou a reação de Nella com uma calma cruel, como se a dor dela fosse apenas mais uma confirmação de seu poder.
“Ela desafiou-me incontáveis vezes. Inicialmente ela não aprovou a ideia de escolher a Nella para ser nomeada na Grande Viagem. Mas como o traidor escolheu fazer a cabeça da Juliet em fugir da mais sagrada cerimônia de nossa tribo, a consequência disso foi a morte de um dos nossos. Stephen, o pai de Nella.”
Os olhos de Nella se encheram de lágrimas com aquela fala cruel do Chefe.
“Para com isso!” pediu Johann, vendo a filha do amigo chorando.
“Por quanto tempo você tem vivido esses dias, sabendo que as suas ações trouxeram desgraça para ela e a todos na tribo? Sua filha sobreviveu, mas o seu amigo não. Como você se sente no dia que ele ficou pra trás enquanto poderia ter ficado no lugar dele e ter aceitado a punição por uma coisa que você fez?”
Johann olhava para Nella. Colocou as mãos ao redor dela, abraçando-a.
“Nella, eu… eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo.” dizia o caçador, sucumbindo ao luto e a tristeza. “Eu devia ter ficado para ajudar o seu pai.”
Os braços dela se enrolaram ao redor de Johann, com a mão segurando a espada com força.
“Tá tudo bem, Johann. Não precisa se desculpar.”
Os olhos dele olhavam fixos nos dela.
“Ele queria que eu tivesse um belo futuro, mesmo ele não estando mais por perto. E às vezes… eu sinto ele. Aqui, dentro de mim.” respondeu ela, sorrindo enquanto apontava para o coração dela.
Johann sorriu aliviado por ela. William permanecia quieto, assistindo aquilo sem reagir para ajudá-la.
A Lua Cheia subia cada vez mais alto no horizonte. William cambaleou. Um gemido baixo escapou da garganta dele enquanto o corpo começava a tremer de forma incontrolável. Nella correu até ele, ajoelhando-se ao lado e apoiando as mãos nas costas largas.
“William, por favor… fica comigo. Lembra quem você é. Lembra quem eu sou!”
Ele apertou os dentes com força, tentando resistir. As unhas já estavam longas e pretas, curvando-se em garras. Os pelos castanhos se espalharam rapidamente pelos braços, pelo pescoço e pelo rosto. A mandíbula estalou, projetando-se para a frente. Os olhos, antes humanos, brilhavam agora com um tom âmbar selvagem.
“Nella…” a voz saiu distorcida, rouca, quase irreconhecível. “Eu… não consigo…”
O Alfa observava a cena com satisfação fria.
“Não adianta tentar ajudá-lo.” disse, a voz já mais profunda. “Em breve a Lua terá alcançado o alto dos céus. E ele terá assumido a sua forma completa.”
Johann se colocou entre o Alfa e os dois jovens, a lança erguida.
“Se vocês não vão entregar a garota para mim”, continuou o antigo Chefe, “então eu terei de tomá-la à força!”
Quando a mão peluda do Alfa desceu em direção a Nella, Johann avançou. A lança cravou no peito do homem de cabelos brancos com um som úmido. O impacto fez o corpo do Alfa recuar um passo, mas ele não gritou. Apenas olhou para a arma enfiada nele com desprezo.
Com um movimento lento e deliberado, arrancou a lança do próprio peito. Sangue escuro escorria por um instante e depois parou. As vestes rasgaram. O corpo cresceu de forma grotesca. Pelos brancos brotaram por toda a pele. As orelhas se alongaram, a boca projetou-se para a frente e uma fileira de dentes afiados se revelou sob a luz da Lua.
Em poucos segundos, o antigo Chefe da tribo já não existia mais. No lugar dele, erguia-se o Lobisomem Alfa de pelos brancos.
William, ao lado de Nella, finalmente cedeu. O corpo dele se contorceu uma última vez. Ossos estalaram. A forma humana desapareceu sob uma explosão de pelos castanhos. Quando a transformação terminou, um lobisomem grande e poderoso estava de quatro no chão, respirando pesado, os olhos ainda lutando entre a sanidade e a fúria da maldição.
O Alfa ergueu a cabeça e soltou um uivo longo, profundo e dominante.
A floresta inteira respondeu.
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Longe dali, nas pedras negras, Ulfric e os caçadores restantes ouviram o uivo do Alfa ecoando por entre as árvores. Os lobisomens da matilha atenderam ao chamado dele, uivando em seguida.
Um dos caçadores, armado com um machado manchado de sangue, estava assustado com aquele coro de uivos.
“Ulfric, o que está acontecendo?!”
O líder ergueu a espada manchada de sangue preto. O rosto dele estava cerrado, mas a voz saiu firme:
“Estejam unidos. Atacaremos ao meu sinal.”
Os homens apertaram os cabos das armas. Alguns faziam o sinal de proteção dos Espíritos. Outros apenas respiravam fundo, sabendo que muitos não voltariam.
Quando os Seres-Lobo que guardavam a entrada do covil viraram o olhar para eles, Ulfric gritou:
“Agora!”
O grito de guerra ecoou entre as pedras. Lanças, machados e espadas se levantaram juntos. Os caçadores avançaram em carga cerrada, sabendo que aquela seria, talvez, a última batalha de suas vidas.
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