Das Mädchen in Rot - Chpt 13 [Portuguese - BR]
Das Mädchen in Rot [Portuguese - BR]
Descrição:
Das Mädchen in Rot (Alemão: A Garota de Vermelho) é uma adaptação sombria da história original escrita por Charles Perrault e os Irmãos Grimm. A adaptação conta a história de Nella, uma jovem que vivia com sua família em uma tribo e cujo pai foi morto por um Ser-Lobo negro (é como as tribos chamam os lobisomens) enquanto ele e um amigo salvavam a jovem Nella. Após atingir a maioridade, Nella foi convocada para fazer parte de um culto onde as mulheres adultas vestem um manto vermelho e partem da tribo para a casa da Grande Mãe para receber a benção dos ancestrais, a fim de manter os Seres-Lobo longe da tribo. De acordo com a Anciã, a casa da Grande Mãe fica nas profundezas da floresta — o mesmo lugar onde os Seres-Lobo e outras criaturas terríveis espreitam, atacando os visitantes que se aventuram sem um pingo de cautela.
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Introdução:
Há cerca de quinze Luas Cheias, uma antiga tribo vivia numa região onde viria ser uma floresta. Essa tribo era conhecida por venerar uma entidade mística cuja forma lembra um lobo.
Quando a primeira Lua Vermelha surgiu no céu, o povo daquela tribo começou a se transformar na imagem da entidade. Ninguém sabia o que aconteceu para eles se tornarem a imagem da entidade, mas diziam que o vento carregava vários uivos pelo mundo inteiro.
Uma noite, um pequeno grupo de caçadores adentraram na floresta à procura de comida. E quando avistaram o primeiro cervo para levá-lo à tribo, um enorme vulto apareceu e devorou três dos caçadores que entraram naquele lugar, restando apenas um deles para contar o que aconteceu. Ele disse que a criatura que matou os outros que foram com ele tinha a forma de um homem, mas a cabeça e pelos de um lobo.
E foi naquele dia que a tribo passou a temer a criatura lobo que atacou o nosso povo na floresta.
Capítulo 13
A batalha final começou com um grito de guerra que ecoou entre as pedras negras.
Ulfric ergueu a espada manchada de sangue e avançou. Atrás dele, os caçadores restantes, homens cansados, feridos, mas ainda de pé, se lançaram contra a linha de Seres-Lobo que guardava a entrada do covil. Lanças cravaram em peitos peludos. Machados abriram costelas. Garras rasgaram escudos e carne humana com o mesmo entusiasmo. Os dois lados sofreram baixas rápidas e brutais. O chão de pedra logo ficou escorregadio de sangue preto e vermelho misturados.
Ulfric e um pequeno grupo de guerreiros mais experientes abriram caminho à força, empurrando os monstros para os lados, tentando alcançar a clareira onde Johann, Nella e William enfrentavam o verdadeiro perigo.
////
Dentro do covil, a Lua Cheia já dominava o céu.
William estava de quatro no chão de pedra, o corpo inteiro coberto por pelos castanhos densos. A forma humana havia desaparecido. Só restava o lobisomem: grande, musculoso, respirando pesado, as garras encravadas na terra como se tentasse se segurar nela. A saliva escorria pelos dentes afiados. Os olhos dourados piscavam entre a fúria animal e algo que ainda lutava para não se apagar.
Nella correu até ele, caindo de joelhos ao seu lado, ignorando o Alfa que observava a poucos metros.
“William.” A voz dela saiu embargada, mas firme. “William, você consegue me ouvir?”
O corpo dele tremeu. Um gemido grave, quase um rosnado, vibrando na garganta. Ele não respondeu. Apenas cerrou os dentes com tanta força que o som dos ossos estalando foi audível.
“Sou eu, Nella.” Ela estendeu a mão, hesitante, e tocou o focinho dele. “Eu estou aqui. Você não está sozinho.”
Nenhuma resposta clara. Só a luta interna. As memórias tentavam furar a névoa da maldição: o rosto dela sob a capa vermelha, os latidos da Hvit, as noites em que ele ainda conseguia falar como humano.
O Alfa deu um passo à frente. O ferimento causado pela lança de Johann já havia cicatrizado por completo sob a luz da Lua. O lobisomem de pelos brancos era enorme, maior que William, os olhos verdes brilhando com inteligência cruel e satisfação.
Johann, ainda armado apenas com a lança, sentiu o sangue gelar. Ver os dois transformados ao mesmo tempo era demais até para um caçador endurecido pela floresta. Ele correu até Nella e agarrou o ombro dela com força.
“Nella, temos que ir. Agora!”
“Não!” Ela sacudiu a mão dele, os olhos cheios de lágrimas e determinação. “Eu não vou deixá-lo!”
“Ele se transformou num monstro!” Johann puxou-a com mais força. “Se ficarmos aqui, os dois vão nos matar!”
O Alfa não deu tempo para mais discussões. Com um salto poderoso, o lobisomem branco avançou. A pata enorme acertou Johann e Nella ao mesmo tempo, arremessando os dois para trás como bonecos. Eles bateram com força no chão rochoso, entre folhas secas e ossos antigos. Nella sentiu a cabeça estalar contra a pedra. A visão escureceu por um segundo. O Matador de Lobos quase escapou dos dedos dela.
Quando conseguiu abrir os olhos, o Alfa já estava sobre ela.
O peso era esmagador. As garras prenderam os braços dela contra o chão. A saliva quente e fétida escorria no rosto dela enquanto o focinho se aproximava, os dentes a poucos centímetros da garganta. Nella chutou, retorceu o corpo, tentou erguer a espada, mas o monstro era forte demais. O ar começava a faltar.
“William…” A voz dela saiu fraca, quase um sussurro desesperado.
Longe dali, ainda no chão, o lobisomem castanho ouviu. A voz atravessou a névoa vermelha da maldição como uma lâmina. Imagens explodiram dentro da mente dele: Nella sorrindo sob a capa vermelha, a Hvit o protegendo quando ainda era criança, o cheiro da floresta quando ainda conseguia caminhar como humano ao lado dela. Tudo veio de uma vez só, misturado, doloroso, real.
As pálpebras de William se abriram por completo. Os olhos dourados brilharam com uma fagulha de consciência. Ele rugiu. O som não era apenas fúria animal. Tinha raiva, dor e algo profundamente humano.
William saltou. O corpo castanho colidiu com o branco em cheio, derrubando o Alfa de cima de Nella. Os dois lobisomens rolaram pelo chão em uma confusão de garras, dentes e pelos, batendo contra as rochas e o altar de pedra. O impacto fez a estátua do Grande Lobo tremer.
Nella se arrastou para trás, ofegante, a espada ainda na mão, os olhos arregalados. Johann, um pouco mais longe, tentava se levantar, com o rosto coberto de sangue e poeira.
No centro da clareira, William e o Alfa se separaram e se ergueram ao mesmo tempo.
Dois lobisomens de tamanho semelhante, um de pelos castanhos, outro de pelos brancos como neve antiga. A Lua Cheia os banhou com a mesma luz prateada, igualando força, velocidade e ferocidade.
Eles se encararam por um segundo. Depois avançaram um contra o outro. Garras se cruzaram. Dentes buscaram gargantas. O som dos corpos colidindo ecoou pela floresta como trovões.
A batalha entre pai e filho havia começado de verdade. Nella ficou paralisada por um instante, o Matador de Lobos ainda firme na mão, observando os dois lobisomens se enfrentarem com uma ferocidade que fazia o chão tremer. Garras rasgavam pelos. Dentes buscavam gargantas. O som dos impactos ecoava entre as rochas negras como trovões abafados.
Ao lado, Johann gemia, tentando se levantar. O golpe do Alfa o havia jogado longe e ele ainda sentia o mundo girar. Nella correu até ele, ajoelhando-se e apoiando o ombro do caçador.
“Johann… você está bem?”
Ele tossiu, limpando o sangue do canto da boca com o dorso da mão.
“Estou… estou bem, Nella.” A voz saiu rouca, mas firme. Os olhos dele, porém, estavam fixos na luta. “Mas não por muito tempo se continuarmos aqui.”
No centro da clareira, William conseguiu se afastar por um segundo. Com um rugido, agarrou um bloco de pedra do altar do Grande Lobo e arremessou com toda a força contra o Alfa. A pedra se espatifou no peito do lobisomem branco, estilhaçando-se em pedaços e levantando uma nuvem de poeira.
Johann viu a oportunidade.
“Agora!” Ele segurou o braço de Nella com urgência. “Temos que sair enquanto seu amigo ainda consegue segurá-lo!”
Nella sacudiu a cabeça com força, os olhos brilhando de determinação e medo.
“Não!” A resposta saiu quase como um grito. “Eu não vou deixar o William para trás! Ele vai precisar de mim!”
Antes que Johann pudesse reagir, ela se soltou e correu em direção aos dois monstros, a capa vermelha voando atrás dela e a espada prateada erguida.
“Nella! Não!”
O grito de Johann se perdeu no rugido da luta.
Ela não olhou para trás. A capa vermelha balançava com o vento da corrida. O capuz escorregou para trás, revelando o longo cabelo castanho que caía em ondas desordenadas sobre os ombros. Nella apertou os dedos com força no cabo do Matador de Lobos e puxou a lâmina para fora da bainha em um movimento limpo. O aço prateado cantou no ar, um som agudo e cortante que ecoou pela clareira.
Os dois lobisomens ouviram.
Os olhos dourados de William se arregalaram. Por um instante, a fúria animal deu lugar a algo parecido com pavor. Ele conhecia o poder daquela espada… e conhecia ainda melhor o perigo de enfrentá-la contra o Alfa. Nella, porém, não hesitou. O medo havia desaparecido do rosto dela. Só restava determinação pura.
Foi exatamente nessa fração de segundo de distração que o Alfa atacou.
A pata branca desceu como um martelo. O golpe acertou William em cheio no ombro e o arremessou para o lado, fazendo-o rolar pelo chão de pedra até bater contra uma das rochas negras. O impacto foi brutal.
“William!”
O grito de Nella saiu dilacerado, mas ela não parou. Continuou avançando, a espada erguida, e desferiu um golpe diagonal mirando o peito do Alfa. O lobisomem branco desviou com uma agilidade surpreendente para o tamanho. A lâmina passou rente, cortando apenas o ar. O movimento foi tão forte que Nella perdeu o equilíbrio por um instante, o corpo girando com a própria força do golpe.
Johann não esperou mais. Ele correu, recuperou a lança que ainda estava no chão e avançou gritando o nome dela.
O Alfa se recompôs com calma quase insultuosa. Deu dois passos lentos em direção a Nella, os olhos verdes brilhando de desprezo. Ela tentou um segundo golpe, mais desesperado, mas a mão enorme do monstro se fechou em torno da lâmina no meio do caminho.
O som foi horripilante.
O Matador de Lobos — a arma forjada especialmente para matar criaturas como ele — ficou preso entre os dedos do Alfa. Sangue negro e grosso escorreu imediatamente pela superfície prateada e escorreu pelos nós dos dedos monstruosos. O metal começou a chiar levemente, como se a prata queimasse a carne dele… mas não o suficiente para fazê-lo soltar.
Nella puxou com todas as forças. A espada não se moveu.
O Alfa inclinou a cabeça enorme para baixo, aproximando o focinho do rosto dela. A respiração quente e fétida bateu na pele de Nella. A voz que saiu daquela garganta era profunda, distorcida, mas ainda carregava o tom cruel do antigo Chefe.
“Achou mesmo que vocês poderiam me derrotar?”
Os dedos apertaram mais a lâmina. O metal gemeu. Nella sentiu o braço quase ser arrancado do lugar enquanto tentava manter a arma.
O Alfa sorriu com todos os dentes. Puxou a espada, e a garota, um pouco mais para perto.
O corpo da garota foi arrastado para a frente. Os pés escorregaram no chão de pedra. Ela gritou de dor quando o ombro quase saiu do lugar, mas não soltou o cabo. O Matador de Lobos era a única chance que tinham. Se perdesse a arma agora, tudo estaria perdido.
Johann chegou gritando. A lança dele cravou na lateral do Alfa com força suficiente para fazê-lo rosnar e virar a cabeça. O lobisomem branco soltou a espada por um segundo. Só um segundo, e Nella caiu para trás, ofegante, ainda agarrada ao Matador de Lobos. O sangue negro pingava da lâmina no chão.
“Corre!” gritou Johann, puxando-a pelo braço.
Ela não correu. Em vez disso, ergueu a espada de novo, os braços tremendo, e levantou mais uma vez. O Alfa soltou um rugido repleto de rancor perante eles.
“Vocês dois se mostraram uma decepção! Johann, por ter tirado a sua filha do caminho para trilhar na Grande Viagem.” disse o Alfa, avançando novamente na direção dos dois. “E você Nella, é um fracasso por entre as escolhidas pela Anciã. Não é digna de carregar o título de Garota de Vermelho e poder se entregar aos Espíritos!”
Nella se colocou na frente, com a espada Matador de Lobos na mão, banhada com o sangue dele.
“Pois saiba que foi você que falhou com todos nós na tribo, Chefe!” respondeu ela, levantando a espada na direção do monstro de pelos brancos e com o olhar destemido. “E agora, farei o que deveria ter sido feito pelas outras há muito tempo.”
“As outras cumpriram a sua parte na Grande Viagem. E você deveria ter se entregado ao inevitável no momento que entrou na floresta, com ou sem a intervenção do meu filho!”
O Alfa se posicionou para lançar sobre Nella e Johann. Foi quando William voltou. O lobisomem castanho se levantou do chão com um rugido que parecia rasgar a própria garganta. Os olhos dourados estavam mais lúcidos agora, como se a dor e a visão de Nella em perigo tivessem arrancado parte da névoa da maldição. Ele saltou sobre o Alfa pelas costas, cravando garras e dentes na nuca branca.
Os dois monstros rolaram de novo pelo chão da clareira, destruindo o que restava do altar. A estátua do Grande Lobo tombou e se partiu ao meio com um estrondo.
Nella aproveitou a abertura. Com um grito de pura raiva e desespero, ela correu e cravou o Matador de Lobos o mais fundo que conseguiu no ombro do Alfa, bem na junta onde o braço encontrava o peito. A lâmina atravessou rasgando o interior da carne. A prata queimou. O lobisomem branco uivou de dor verdadeira pela primeira vez. Um som agudo, quase humano, misturado com fúria. O sangue negro jorrou em quantidade.
William não perdeu a chance. Enquanto o Alfa se contorcia, ele cravou as garras no peito do progenitor, empurrando com toda a força, tentando imobilizá-lo.
Johann, respirando pesado, se colocou ao lado de Nella, a lança pronta.
“Agora!” gritou ele. “Termine!”
Nella apertou o cabo da espada com as duas mãos. Os olhos estavam cheios de lágrimas, mas a expressão era de aço. Ela puxou a lâmina para fora e, com todo o peso do corpo, desferiu o segundo golpe, desta vez mirando o pescoço do Alfa.
A prata cortou fundo. O uivo do Lobisomem de pelos brancos ecoou por toda a floresta, longo, agonizante, e depois falhou.
O corpo enorme estremeceu. Os olhos verdes, antes cheios de crueldade, se arregalaram. Por um instante, o rosto monstruoso pareceu quase humano de novo, o antigo Chefe olhando para a garota de capa vermelha que ele mesmo havia escolhido para a Grande Viagem.
“Nella… eu… sinto muito…”
Depois, o brilho se apagou. O Alfa caiu de lado com um impacto pesado. O peito subiu e desceu uma última vez… e parou.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
William ainda estava sobre o corpo do pai, ofegante, o pelo castanho eriçado, o sangue negro escorrendo das garras. Devagar, muito devagar, ele recuou. O corpo começou a tremer de novo. Os pelos foram se retraindo. Os ossos estalaram em uma sequência dolorosa e úmida. Em poucos segundos, o lobisomem deu lugar ao jovem de cabelo castanho, nu, coberto de ferimentos e sangue, ajoelhado no chão frio da clareira.
Nella deixou a espada cair com um tilintar metálico e correu até ele.
“William…”
Ele ergueu o rosto. Os olhos ainda tinham um leve brilho dourado residual, mas eram humanos outra vez. Quando ela se ajoelhou e o puxou para um abraço apertado, ele enterrou o rosto no ombro dela e chorou. Um choro baixo, rouco, de alguém que tinha quase se perdido de vez dentro da própria pele.
“Nella… por um segundo… eu achei que ia te…” A voz dele falhou. “Eu quase…”
“Tá tudo bem”, ela sussurrou, passando a mão direita pelo cabelo sujo e ensanguentado dele. “Eu estou aqui. E você está aqui comigo. É o que importa.”
William respirou fundo, o peito ainda arfando.
“Está feito. O Alfa… o meu pai… está morto.”
“Eu sei.”
“A sua tribo está a salvo. As outras também.”
Nella apenas assentiu, apertando-o com mais força por um momento antes de se afastar o suficiente para tirar a capa vermelha e envolvê-la cuidadosamente em volta do corpo nu e ferido dele.
Johann permanecia a alguns metros de distância, a lança ainda na mão, olhando o corpo imóvel do antigo Chefe. Depois desviou o olhar para os dois jovens e soltou um longo suspiro — parte alívio, parte exaustão profunda.
“Nella. William.” A voz dele saiu rouca. Ele usou a lança como apoio para se manter de pé. “Vocês arriscaram as próprias vidas para derrotar aquilo.”
Nella olhou para William, depois para o caçador que tinha sido amigo do seu pai. Balançou a cabeça devagar.
“Por um instante”, confessou Johann, a voz mais baixa, “achei que não ia te ver de novo. Que ia ter de voltar para a tribo e contar para a sua mãe que… que a Grande Viagem tinha custado a filha dela também.”
Nella segurou a mão de William enquanto respondia:
“Eu já sabia dos riscos no dia em que aceitei. A minha mãe também sabia. Mas era a única forma de salvá-la… e a todos os outros.”
William deu um passo à frente, ainda coberto pela capa vermelha, e sentiu uma fisgada forte no peito. Nella o segurou imediatamente pelo braço.
“Mesmo quando o Johann tentou te convencer a desistir”, disse o rapaz, a voz ainda fraca, mas firme, “você continuou. Você se mostrou mais forte e corajosa do que qualquer um de nós.”
Johann cerrou o maxilar, olhou para o corpo do Alfa uma última vez e depois soltou o ar pesadamente. Não havia mais o que dizer.
A Lua Cheia ainda brilhava alta acima deles. E, pela primeira vez em muitos anos, a floresta ao redor do covil permanecia em completo silêncio.
////
Longe dali, nas pedras negras, o uivo de morte do Alfa chegou até Ulfric e os caçadores. Os Seres-Lobo restantes pararam de lutar. Alguns recuaram. Outros simplesmente se ajoelharam.
A batalha lá fora começava a terminar. O grupo de caçadores, reduzido para dezessete contando o líder deles, levantou suas armas ensanguentadas para o alto, com gritos de urra para celebrar a vitória. Alguns se prestaram luto pelos irmãos de batalha caídos, com estes sendo transportados para a tribo, onde seriam cremados.
Ao mesmo tempo, o líder dos caçadores dirigiu-se sozinho ao covil dos lobisomens.
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Horas se passaram desde a batalha.
A Lua Cheia ainda dominava o céu quando Nella, Johann e William começaram a cavar. O chão próximo à estátua destruída do Grande Lobo era duro e cheio de raízes, mas nenhum dos três reclamou. Trabalharam em silêncio, usando pedaços de pedra e as próprias mãos quando as ferramentas improvisadas não bastavam. O corpo do antigo Chefe — agora novamente humano, envelhecido e coberto de ferimentos — foi colocado com cuidado dentro da cova rasa.
Nella observava quase inexpressiva. O rosto dela estava sujo de terra, sangue seco e lágrimas que já haviam secado há tempo. William, ainda envolto na capa vermelha dela, segurava a mão direita de Nella com força, como se aquele contato fosse a única coisa que o mantinha de pé. Johann, por fim, completou o túmulo. Empilhou as últimas pedras sobre a terra e, sem dizer nada, cravou a própria lança no chão ao lado da cabeceira.
Foi Nella quem quebrou o silêncio. Ela se ajoelhou, tirou o Matador de Lobos da bainha e o cravou fundo na terra, bem no centro do monte de pedras. A lâmina prateada brilhou sob a luz da Lua uma última vez antes de se tornar a lápide improvisada daquele que um dia fora o Chefe da tribo… e o monstro que quase os destruiu.
“Que você encontre a paz que nunca conseguiu em vida.” murmurou ela.
William apertou a mão dela. Johann apenas baixou a cabeça. Ulfric se dirige ao caçador, balançando a cabeça pra frente, informando de que a batalha está vencida. Foi então que os passos se aproximaram, atraindo a atenção do grupo.
Dos limiares da clareira, os Seres-Lobo que haviam sobrevivido à batalha começaram a surgir. Uns ainda em forma lupina, outros já parcialmente humanos, cobertos de ferimentos e sangue. Não avançaram com hostilidade. Em vez disso, um a um, foram se ajoelhando no chão de pedra, a cabeça baixa, o olhar fixo em William.
O maior entre eles, um lobisomem de pelos cinza-escuros, ergueu a voz, rouca e respeitosa:
“O Alfa está morto. O sangue dele corre em suas veias, Castanho. A matilha o reconhece.”
William ficou imóvel por um momento. A capa vermelha escorregou um pouco do ombro. Quando falou, a voz saiu baixa, mas firme o bastante para ecoar na clareira:
“Eu aceito. Mas com uma condição.”
Os lobisomens ergueram as cabeças.
“Nenhum humano será caçado. Nenhuma tribo será tocada. A Grande Viagem acaba aqui. Se alguém de vocês quebrar essa palavra… eu mesmo terminarei o que comecei esta noite.”
Um murmúrio baixo passou pelo grupo ajoelhado. Depois, um a um, eles baixaram a cabeça novamente em sinal de aceitação.
O lobisomem de pelos cinza falou por todos:
“Assim será, Alfa.”
Nella apertou a mão de William com mais força. Johann e Ulfric observavam a cena em silêncio, ainda sem conseguir acreditar completamente no que viram.
Acima deles, a Lua Cheia começava, muito lentamente, a descer. A floresta, pela primeira vez em gerações, não uivou de volta.
////
O retorno à tribo aconteceu ao amanhecer do segundo dia.
Os corpos dos caçadores caídos foram levados pelos remanescentes da matilha, a pedido de William e Ulfric, para uma região nas proximidades da floresta, onde de lá realizaram as piras fúnebres, sendo cremados conforme as tradições da tribo do caçador. Nella, William e Johann prestaram respeito aos caídos na batalha do covil do Alfa, com Ulfric e os outros caçadores cantando canções para os Espíritos. De lá, o grupo seguiu até a tribo.
Quando as primeiras casas de madeira e palha surgiram entre as árvores, Nella quase não conseguiu manter o passo. Johann caminhava um pouco à frente, a lança ainda na mão como um cajado. William, vestido com roupas improvisadas que os caçadores lhe deram, seguia ao lado dela, a capa vermelha agora dobrada no braço.
A notícia de que a Grande Viagem havia terminado e de que o Alfa estava morto chegou antes deles. Mulheres, crianças e os poucos homens que haviam permanecido saíram das casas. Murmúrios se espalharam. Alguns apontavam. Outros cobriam a boca com as mãos.
Foi então que uma figura se destacou da multidão. Dora, a mãe de Nella.
Os anos haviam deixado fios brancos nos cabelos castanhos, e o rosto carregava as marcas da espera e do medo. Mas quando os olhos dela encontraram a filha, tudo isso desapareceu. Nella soltou a mão de William e correu.
As duas se abraçaram no meio do caminho de terra batida. O choro veio sem vergonha, alto, aliviado, quase histérico. A mãe afagava o cabelo da filha com as mãos trêmulas, repetindo o nome dela como se precisasse se convencer de que era real.
“Você voltou… você realmente voltou…”
Nella só conseguia assentir, o rosto enterrado no ombro da mãe.
William permaneceu a alguns passos de distância, desconfortável sob os olhares curiosos e desconfiados da tribo. Foi Johann quem quebrou o momento. Avançou e falou em voz alta o suficiente para todos ouvirem:
“Esta jovem enfrentou o que nenhum de nós teve coragem de enfrentar. E este rapaz…” Ele apontou para William. “…lutou ao lado dela até o fim. Sem ele, nenhum de nós estaria aqui.”
Houve um silêncio pesado. Depois, aos poucos, as pessoas começaram a se aproximar. Algumas tocavam o ombro de Nella. Outras apenas inclinavam a cabeça em respeito a William. A mãe da garota, ainda com os olhos vermelhos, olhou para o jovem de cabelo castanho e, depois de um longo momento, estendeu a mão.
“Se minha filha confia em você… então a tribo também confiará.”
William apertou a mão dela com cuidado.
“Obrigado.” Respondeu ele, tendo dificuldades de se acostumar com um mundo diferente com relação ao tempo que passou na floresta.
Nos dias que se seguiram ao retorno, a vida na tribo mudou. Johann foi escolhido por aclamação como o novo Chefe. A cerimônia foi simples e conduzida por Dora, que já assumira o papel de Anciã. Ele aceitou com a mesma seriedade com que sempre carregara a lança.
Foi durante essa cerimônia que Juliet reapareceu. Agora uma mulher adulta, de cabelos escuros presos em uma trança grossa e olhar firme, ela atravessou a multidão em silêncio. Johann a viu e, por um instante, pareceu esquecer como respirar. O abraço entre pai e filha foi longo e sem palavras. Quando se separaram, Juliet se virou para Nella.
“Ouvi o que você fez”, disse, a voz baixa, mas clara. “Obrigada… por trazer meu pai de volta. E por acabar com aquilo.”
Nella apenas assentiu, ainda sem saber o que responder. Juliet, então, ofereceu um pequeno sorriso, o primeiro que muitos viam nela desde sua volta, e se afastou para ficar ao lado do pai.
A partir daquele dia, ela se tornou uma presença constante na tribo: discreta, observadora e, quando necessário, tão determinada quanto a própria Nella.
Quanto à jovem Garota de Vermelho que retornou pra casa e ao companheiro de viagem, o tempo fez o resto.
Não houve pressa. Houve noites de conversa, de cura, de silêncios compartilhados. Houve o momento em que William, ainda com medo da própria natureza, confessou que talvez nunca pudesse oferecer a ela uma vida completamente normal. E houve a resposta simples de Nella:
“Eu nunca pedi uma vida normal. Pedi apenas você.”
Eles se casaram sob a luz da próxima Lua Nova, longe do olhar da floresta. A cerimônia foi simples. Johann os uniu, com Nella e William beijando diante de todos. A mãe de Nella chorou de novo, desta vez de alegria. Juliet observou tudo com um pequeno sorriso. E, pela primeira vez em gerações, nenhum uivo respondeu à noite.
////
Anos se passaram. A tribo viveu em prosperidade, com o comércio retomando com as outras tribos.
A primeira filha do casal nasceu numa manhã de outono, quando as folhas começaram a dourar. Batizaram-na de Hvit, em homenagem à loba que havia caminhado ao lado deles durante a Grande Viagem e se sacrificado para que chegassem até o fim. A menina herdou os primeiros fios de cabelo castanhos do pai e os olhos azuis profundos da mãe. Cresceu entre as casas de madeira da tribo, ouvindo as mesmas histórias, aprendendo os mesmos costumes e correndo pelos mesmos caminhos de terra que Nella percorrerá quando criança.
Por um tempo, tudo pareceu normal.
Até a primeira Lua Cheia depois que ela completou oito anos.
Naquela noite, Hvit acordou gritando. O corpo tremeu, os ossos estalaram e os pelos castanhos curtos brotaram pelos braços. Os olhos azuis brilharam com um tom dourado por alguns segundos antes de ela desmaiar de puro susto. William e Nella chegaram a tempo de vê-la voltar à forma humana, ofegante e assustada.
Não houve negação possível. A filha herdara a maldição do pai… e, com ela, a mesma luta que William travara a vida inteira.
Eles a criaram com ainda mais cuidado depois daquilo. Ensinaram-na a reconhecer os sinais, a controlar a respiração, a não ter medo do que carregava dentro de si. E, nas noites de Lua Cheia, William nunca a deixava sozinha. Sentou-se ao lado da filha, com a mão firme no ombro dela, e esperava juntos o amanhecer.
Nella observava os dois em silêncio, o coração apertado e orgulhoso ao mesmo tempo.
A floresta continuava quieta. Mas agora eles sabiam que o legado do Alfa não havia morrido por completo.
Quando Hvit completou doze anos, William chamou Nella para conversar longe das casas da tribo.
“Ela precisa entender de onde veio”, disse ele, em voz baixa. “Não só as histórias que contamos. Ela precisa sentir a floresta. Precisa ver o lugar onde eu cresci… e onde quase me perdi.”
Nella ficou em silêncio por um longo momento. O vento mexia nos cabelos brancos que já começavam a aparecer.
“E se algo acontecer?”, perguntou, finalmente. “E se a maldição for mais forte nela do que foi em você?”
William segurou as mãos dela.
“Eu estarei com ela o tempo todo. E prometo que voltaremos. Não vou levá-la para ficar. Só para que ela conheça a verdade com os próprios olhos… e decida, um dia, quem quer ser.”
Nella apertou os dedos dele com força. Não conseguiu esconder o medo, mas também não pediu que ele desistisse. No amanhecer seguinte, observou os dois entrarem na orla da floresta, o pai e a filha, lado a lado, até desaparecerem entre as árvores. Só então permitiu que as lágrimas caíssem.
////
Os anos seguintes foram quietos, quase surpreendentemente quietos.
Nella e William construíram uma vida simples. A filha cresceu. A tribo prosperou sob a liderança de Johann. As antigas cerimônias da Grande Viagem foram aos poucos abandonadas e substituídas por ritos de passagem que não exigiam sangue nem sacrifício. Dora, a mãe de Nella, envelheceu com serenidade e, quando chegou a hora, entregou o manto de Anciã à filha com um beijo na testa e um sorriso cansado.
Johann partiu alguns invernos depois, cercado pela família. Juliet, já estabelecida na tribo, foi quem fechou os olhos do pai.
Quando Nella finalmente se sentou na cadeira de madeira perto da fogueira central, os cabelos quase completamente brancos e as mãos um pouco trêmulas para poder carregar uma espada pesada como o Matador de Lobos, a floresta já não era mais a mesma ameaça de outrora. Mas ela nunca esqueceu o preço que haviam pago para chegar até ali.
Apanhou uma xícara de chá quente que preparou, tremendo levemente quando segurava. Estava sentada na mesma cadeira de madeira onde a antiga Anciã costumava ficar, perto da fogueira central da cabana.
Diante dela, uma jovem de no máximo dezesseis anos a observava com atenção misturada a nervosismo. A capa vermelha nova ainda cheirava a tecido fresco.
“Então… é verdade?”, perguntou a menina, em voz baixa. “Sobre o Alfa… e sobre o lobisomem que se tornou humano de novo?”
Nella sorriu, um sorriso cansado e sereno.
“É verdade. Tudo isso aconteceu.” Ela olhou para as brasas. “E se um dia a floresta voltar a chamar… lembre-se do que eu te contei. Nem todo monstro nasce monstro. E nem toda Garota de Vermelho precisa se sacrificar.”
A jovem assentiu, absorvendo cada palavra.
Foi então que, de muito longe, um uivo solitário cortou a noite. Não era um uivo de caça. Nem de desafio. Era longo, baixo, quase melancólico.
Nella ergueu o olhar na direção da floresta. Por um instante, seus olhos brilharam com a mesma determinação de décadas atrás. Depois, o brilho suavizou.
Ela apenas escutou. E sorriu.
–– Fim ––
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