Das Mädchen in Rot - Chpt 9 [Portuguese - BR]

Das Mädchen in Rot [Portuguese - BR]



Descrição:

Das Mädchen in Rot (Alemão: A Garota de Vermelho) é uma adaptação sombria da história original escrita por Charles Perrault e os Irmãos Grimm. A adaptação conta a história de Nella, uma jovem que vivia com sua família em uma tribo e cujo pai foi morto por um Ser-Lobo negro (é como as tribos chamam os lobisomens) enquanto ele e um amigo salvavam a jovem Nella. Após atingir a maioridade, Nella foi convocada para fazer parte de um culto onde as mulheres adultas vestem um manto vermelho e partem da tribo para a casa da Grande Mãe para receber a benção dos ancestrais, a fim de manter os Seres-Lobo longe da tribo. De acordo com a Anciã, a casa da Grande Mãe fica nas profundezas da floresta — o mesmo lugar onde os Seres-Lobo e outras criaturas terríveis espreitam, atacando os visitantes que se aventuram sem um pingo de cautela.

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Introdução:

Há cerca de quinze Luas Cheias, uma antiga tribo vivia numa região onde viria ser uma floresta. Essa tribo era conhecida por venerar uma entidade mística cuja forma lembra um lobo.

Quando a primeira Lua Vermelha surgiu no céu, o povo daquela tribo começou a se transformar na imagem da entidade. Ninguém sabia o que aconteceu para eles se tornarem a imagem da entidade, mas diziam que o vento carregava vários uivos pelo mundo inteiro.

Uma noite, um pequeno grupo de caçadores adentraram na floresta à procura de comida. E quando avistaram o primeiro cervo para levá-lo à tribo, um enorme vulto apareceu e devorou três dos caçadores que entraram naquele lugar, restando apenas um deles para contar o que aconteceu. Ele disse que a criatura que matou os outros que foram com ele tinha a forma de um homem, mas a cabeça e pelos de um lobo.

E foi naquele dia que a tribo passou a temer a criatura lobo que atacou o nosso povo na floresta.

Capítulo 9

William e Nella estavam sentados ainda naquela região da floresta, recuperando-se do último encontro que tiveram com os lobisomens. O vento ecoava por entre as árvores, gelando o ambiente em que os viajantes estavam. Apenas a fogueira continua acesa, protegendo-os do frio do inverno. Hvit permanecia deitada no chão, encostada na árvore próxima a eles.

Durante o repouso, Nella e William conversavam sobre a origem dele e dos lobisomens após a Garota de Vermelho ter tido uma espécie de visão em meio ao sonho dela. Nella viu um lobisomem de pelos brancos que atacou a tribo dela, um sinal de que o Chefe poderia ter alguma ligação com os Seres-Lobo.

No entanto, William virou o rosto dele pro lado, com receio de contar a ela sobre o passado sombrio dele. Como resposta, evitou outra vez o pedido de Nella.

“Não vai querer saber sobre esta história.”

“William, eu sei que você não vai me contar. Você me disse que eu não estava pronta para lidar com tudo isto.”

“E não está.”

“Mas estou mais do que pronta. Estou disposta a ouvi-la, não importa com o que for!”

William permanecia quieto diante da fala de Nella.

“Eu quero saber, qual é a sua história com o Alfa, a sua origem como lobisomem, tudo.”

O garoto suspirou diante da insistência de Nella. Os olhos permaneciam travados na fogueira, fechando momentaneamente. Depois tornou a abri-los.

“Tá bem. Já que quer tanto sabê-la, eu vou contar.”

Nella se acomodou no lugar que estava sentada, prestando atenção em seu guardião.

“Há muitos anos, esta floresta era protegida pela manifestação do Espírito do Grande Lobo. Muitos caçadores de várias tribos vieram aqui para caçar, apenas para retornar em menor número. Os que ficaram pra trás, viraram comida das feras que espreitam aqui. Aqueles que conseguiram voltar com vida, puderam contar a história dos encontros cruéis com aquelas feras e alguns até voltaram com arranhões ou mordidas.”

O vento balançava entre as folhas das árvores e o pelo de Hvit. A loba em questão permanecia deitada, observando os dois viajantes.

“Porém, o que eles não sabiam é que esses ferimentos trariam as desgraças para aqueles que estavam ao redor daqueles caçadores. Um após o outro, sucumbiram à maldição, transformando em monstros com cabeças de lobo. Mataram várias pessoas e destruíram vilarejos.”

“E o que aconteceu com eles depois disso?”

“Correram para a floresta. Vários desses monstros que se transformaram sob a Lua Cheia não puderam regressar à forma humana. Ficaram presos sob a imagem do Grande Lobo, ganhando nomes como lobisomens, Seres-Lobo, Homens de Cabeça Lupina ou até Filhos do Grande Lobo. Muitos se reuniram, mas não havia alguém que pudesse ser o líder, com várias disputas sendo travadas entre eles.”

“Com o mais forte dominando o mais fraco.” Completou Nella, olhando para as chamas estalando por entre os gravetos e a madeira.

“Exatamente. Um deles surgiu por entre os demais lobisomens, tomando o manto de Alfa após vencer os competidores. Muitos que sobreviveram, seguiram fielmente o lobisomem Alfa, atacando aqueles sob o comando dele.”

Nella lembrou da breve história sobre a espada Matador de Lobos e do caçador que enfrentou o Lobisomem Alfa.

“Mas, esse Lobisomem Alfa do meu sonho? Não era o mesmo que enfrentou o caçador que portava o Matador de Lobos?”

“Não. Aquele era o primeiro Lobisomem Alfa, morto há muitos anos pelo caçador que carregou consigo o Matador de Lobos, que agora está aqui nesta floresta. Já aquele, o de pelos brancos de seu sonho, tomou o manto quando a matilha estava fragmentada, quebrada.”

“Fragmentada? Quer dizer que eles seguiram rumos separados quando o primeiro Alfa foi morto?”

William balançou a cabeça pra frente, respondendo afirmativamente para Nella. “Alguns seguiram caminhos separados, mas vagando na floresta por viajantes e caçadores desavisados, tentando montar suas próprias alcateias. Mas a maioria deles foi reunida após a sucessão do novo Alfa.”

Nella prestava atenção na história de William sobre a origem dos lobisomens e do Alfa. Os olhos do garoto expressavam seriedade no assunto conforme contava para a protegida dele.

“Mas houve muita dissidência entre a matilha quanto a sucessão do novo Alfa, com vários deles tentando tomar o manto para eles mesmos. No fim, poucos restaram da primeira geração, como o lobisomem de pelos negros. Depois dele, vieram outros, como o de pelos marrom-escuro, o de pelos cinzentos e aquele lobisomem na cabana da Grande Mãe.”

“Gerações? Quer dizer que vocês tiveram descendentes?”

“Através do novo Alfa. Mas é um assunto bem sombrio, se estiver disposto a ouvir a história.”

“Eu estou disposta a ouvir essa história, William.” disse Nella, decidida e séria.

William se ajeitou no local onde estava. Seguiu para contar a história do passado dele para a Garota de Vermelho.

////

De volta na tribo da garota, várias pessoas estavam reunidas nas proximidades da cabana do Chefe. Cochichos e sussurros se espalharam por entre elas a respeito do estado do líder da tribo. Dora, a mãe de Nella notou o aglomerado de pessoas naquele lugar enquanto seguia o caminho para a casa dela. A princípio, pensou que era algum pronunciamento do Chefe, mas a forma como os sussurros ecoavam de pessoa pra pessoa causava uma preocupação na mãe da garota que foi na floresta.

E no meio daquela inquietude, surge a última pessoa que precisavam para ajudar a tribo em meio aquela crise. A Anciã se aproxima do aglomerado de aldeões, sendo acompanhada das sacerdotisas. A presença dela proporciona algum alívio para as pessoas assustadas. Dora viu aquela mulher de idade chegando no meio da multidão. Sentiu que esta seria a última vez a vê-la.

“Anciã.” chamou o açougueiro, ajoelhando perante a presença dela. Os outros fizeram o mesmo.

A líder espiritual pediu para os aldeões se levantarem.

“Eu senti que os ventos ficaram agitados aqui. Além disso, recebi a informação de que o Chefe tem estado perturbado.” respondeu ela para o homem armado com o bastão.

“O Chefe tem estado estranho ultimamente.” disse uma das mulheres.

“Ele tem evitado a gente, raramente fala e vive perturbado com alguma coisa.” completou o jovem que estava pra ir com os outros dois homens.

“Isso é sério, Anciã! Alguma coisa não está certa com ele.” completou o ruivo.

A Anciã permanecia calma diante das falas das pessoas, pedindo ajuda para ela. Gesticulou para as sacerdotisas ficarem para trás.

“Eu vou entrar. Vou conversar com o Chefe e ver se posso ajudá-lo a enfrentar o que ele está passando.”

“É perigoso demais, Anciã. Não aconselho você ir sozinha.” disse o açougueiro.

“Sua preocupação é notada. Mas receio que muitas pessoas comigo possam deixá-lo mais agitado.”

Algumas mulheres choravam por medo e receio da Anciã entrar sozinha. Ao se aproximar de uma jovem garota de cabelos dourados e olhos verdes, abalada pela partida, a mulher colocou a mão esquerda no rosto dela e depois a da direita, limpando as lágrimas dos olhos da menina.

“Não precisa chorar, minha criança. Saiba que você é corajosa o bastante para enfrentar as adversidades que possam surgir neste mundo.”

“Eu… eu vou tentar, Anciã.” disse a garota consolada.

A Anciã sorriu para ela, beijando a testa da garota para acalmá-la. Em seguida, passou por entre as demais pessoas, com várias mãos estendidas para frente, sendo tocadas por ela. Ao se dirigir até a cabana, ouviu uma voz chamando-a. Era a mãe de Nella.

“Sim, Dora?”

“Anciã, caso você não retorne, o que faremos?”

A mulher em questão sorriu por um momento para a outra mulher.

“Cuide desta tribo, destas pessoas. Cuide-as como se fossem seus filhos e filhas até a Nella retornar da Grande Viagem. Garanto que tem muito pela frente para vocês duas.”

Ouvindo aquilo, a mãe da jovem Nella ficou em silêncio. Cuidar da tribo até a Nella retornar. A preocupação dela era se algo acontecesse para a única filha e nunca mais retornar para casa. No entanto, a coragem foi surgindo no coração dela.

“Eu a entendo.”

A Anciã sorriu pela última vez para Dora e em seguida virou o olhar dela para a cabana do Chefe. Passou por entre as portas, desaparecendo por entre a escuridão daquele lugar. Muitas pessoas ficaram atentas para aquele lugar, com receio da líder espiritual de não retornar.

////

No interior daquele lugar, os olhos da Anciã captaram uma cena de destruição e ruína no salão principal. Móveis destruídos, pinturas rasgadas, tapetes e tecidos arruinados, paredes arranhadas, portas e janelas abertas violentamente. Ela seguiu calmamente até as escadas, subindo cada degrau. O vestido branco e o manto vermelho longo dela passavam por entre aqueles objetos caídos. Às vezes enroscavam pelos espaços apertados ou pelas farpas de madeira.

Ao subir no alto das escadas, a Anciã avistou o quarto do Chefe, sendo o único lugar sendo iluminado pelo sol. Assim como o salão principal, estava arruinado. Armário, baús de madeira, cômodos, tapetes, janela, lençóis e a cama. E ao falar do último móvel, ela avistou uma pessoa deitada em cima. Estava encolhida, em posição fetal. A mão direita segurava o ombro machucado. O cabelo continuava da mesma cor: cinzento.

A Anciã se aproximou do Chefe. Viu que o corpo dele gemia. Frio, dor ou o que quer que fosse, a mulher estendia a mão nele, mesmo com o risco de provocá-lo a agressão.

“Está tudo bem, Chefe. Sou eu.”

Ouvindo as palavras dela e sentindo a mão dela tocar o ombro, ele se virou. Não com raiva, mas assustado.

“Anciã.”

“Sim.”

“Por que está aqui?”

“Muitas pessoas estão assustadas, assim como você. Estão preocupadas por você estar estranhamente agitado.”

O Chefe se levantou, puxando o manto de pele para cobrir o ombro machucado dele. A figura espiritual sabia que ele escondia algo naquelas marcas de dente.

“Esse machucado seu. Será que é isso que está te incomodando?” perguntou a Anciã, estendendo a mão dela para sentir. Porém o Chefe a deteve, segurando o pulso dela com a mão direita.

“Chefe, permita-me ajudá-lo. Sei que você resiste a isso, mas não há motivos para escondê-lo de muitas pessoas.” disse ela com um olhar sereno, sentindo os dedos esmagando o pulso e a pele já macia.

O homem ainda resistia de se abrir com ela. No entanto, fechou os olhos, soltando o pulso da Anciã. Tornou a retirar o casaco e o manto de cima, revelando a mordida que recebeu há muito tempo. Os dedos dela tocaram naquela região do corpo dele, causando um desconforto. Depois disso, ela apoiou o restante da mão, acalmando-o.

“Há quanto tempo você tem esse machucado?”

“Faz anos, Anciã. Bem antes de eu ter me tornado Chefe.” respondeu ele. O peito dele se mexia conforme a respiração. A mão da Anciã deslizou no local, sentindo a dor que percorria nele.

“Ferimentos assim deveriam ter se fechado há muito tempo. Mas eu sinto que não é uma mordida de algum animal qualquer.”

Os olhos da Anciã permaneciam fixos nas marcas de dente. Em seguida, tornou a fechá-los, mas olhando para o rosto do Chefe.

“O que aconteceu naquele dia, Chefe? O que você estava caçando?”

“Eu estava na floresta, junto dos outros caçadores. Estávamos caçando cervos para sustentar a nossa tribo durante aquele inverno.”

O relato dele para a líder espiritual da tribo passava na mente dela. Ela viu cada detalhe do local, do homem e dos demais colegas. O Chefe, que na época era um caçador, tinha o porte físico moldado para um homem de 31 anos, com cabelos e barba de cor preta. Vestia casaco, calça e botas de pele. O pelo o protegia do frio.

Ele portava um arco e flecha, com os outros carregando lanças, arcos e flechas, machados e espadas. Andavam calmamente para não provocar barulho e afugentar os cervos na região.

Éramos nove. Buscamos os melhores lugares e momentos para caçar cervos. E foi aí que avistamos o nosso alvo.

O Chefe e os outros se esgueiravam para abater aquele animal. Notavam que ele não percebeu que estava sendo caçado, com a cabeça abaixada, comendo grama do chão coberto de neve.

Mas havia uma coisa que se aproximava deles. Algo que se mexia por entre as sombras e as densas folhas de pinheiros e árvores. Ao se aproximar do local ocupado pelos caçadores, optou por recuar por um instante, espreitando-os cuidadosamente. Tinha os olhos vermelhos e a pupila escura, ocupando boa parte deles.

No entanto, havia alguma coisa que se espreitava nas sombras. Nós não sabíamos o que era e não sabíamos que ela estava atrás de nós.

Os olhos da criatura mirou-se no Chefe. As pupilas se contraíram, assumindo uma feição de monstro, pronto para atacar. Correu na direção dele, avançando a toda velocidade e fúria.

E foi nesse momento que surgiu uma criatura atrás de nós, saltando na minha direção.

Era um lobo. Mas não era um lobo qualquer. Era maior demais para ser a criatura que muitas pessoas conheciam ou já viram antes. Tinha a pelagem mais escura, olhos vermelhos de cor mais intensa e presas afiadas, capazes de rasgar objetos duros.

Ela veio na minha direção. Era um grande lobo negro de olhos vermelhos. Saltou para abocanhar a minha jugular. Mas ela pegou no meu ombro esquerdo. Muitos ouviram o meu grito, pedindo socorro enquanto a dor era insuportável.

O cervo correu para longe após o ataque. Os demais caçadores correram para tirar o lobo de cima do Chefe. Atiraram suas flechas e lanças na criatura, atravessando a pele. Outros chegaram com suas espadas e machados para golpeá-lo, causando ferimentos nas costas, patas e cauda.

Mas o lobo se sacudiu, tirando os homens de perto. E com o Chefe ainda preso nos dentes, chacoalhou a cabeça pros lados, jogando o homem ferido pra longe. A neve amorteceu a queda, mas sangue saia com força pela mordida, com o risco de morrer de choque por hemorragia era iminente.

Três homens correram na minha direção para me socorrer. Fizeram de tudo para estancar a hemorragia. Os outros cinco tentaram cercar aquele lobo com suas armas.

O relato do Chefe causava certo temor na Anciã. Ela via os demais caçadores se arriscarem para abater aquele grande lobo negro. A criatura lutava para sobreviver, apanhando um deles com seus dentes pela barriga. Podia ouvir os gritos de dor e horror vindo dele, sendo dilacerado ao meio quando a criatura o colocou no chão, botando a pata em cima das pernas, puxando-o com força, rasgando aquele caçador ao meio. Em seguida, fez a mesma coisa que o Chefe. Jogou o corpo do homem pra longe, atingindo-o numa árvore. Sangue pintava o chão coberto de neve de vermelho.

Os demais caçadores acertaram a criatura com mais flechas, tentando abatê-la à distância. Porém, o lobo correu na direção deles, esmagando o outro caçador com suas patas dianteiras.

Um deles conseguiu subir por meio dos pelos dele, subindo até a cabeça. Com a espada na mão, desferiu vários golpes perfurantes na onde ficava o cérebro, atravessando o crânio duro daquele grande lobo. A criatura chacoalhava para tentar tirar aquele homem de cima. Os outros dois correram para ajudá-lo, mas foram atingidos pela cauda do lobo, sendo jogados para longe.

Os caçadores que foram atrás do lobo foram corajosos o bastante, mesmo que tenham sido mortos, um após o outro. Eu vi aquele homem em cima da besta, apunhalando-a pela cabeça. Em um dos golpes, ele conseguiu cegá-la, deixando-a desorientada.

O grande lobo correu de um lado para o outro, batendo seu corpo nas árvores para derrubar o caçador. O homem segurou-se no pelo da criatura, e com a espada na mão, desferiu mais golpes. Mas a última batida o fez cair no chão, rolando por entre as patas. Por fim, já não tinha mais forças para se levantar. A criatura se aproximou da cabeça dele, abocanhando com os dentes afiados, arrancando-a pra fora do corpo.

O Chefe e os outros três caçadores estavam exaustos para enfrentar a criatura que se aproximava deles. Puderam ver os olhos fechados e a cabeça coberta de sangue. Ela se aproximou deles, cambaleando devido aos ferimentos enquanto rosnava para querer atacá-los. Porém, sem motivos ou explicação, optou por deixá-los. O lobo recuou-se para o interior da floresta.

Vimos aquela criatura recuando para o interior da floresta, poupando as nossas vidas no processo. Achamos estranho ele fazer aquilo. Tinha matado os nossos companheiros e teria matado a gente se tivéssemos prolongado aquele conflito.

“No fim, vocês retornaram para a tribo de mãos vazias. Sem terem caçado alguma coisa para alimentar a todos.” disse a Anciã, ainda de olhos fechados.

“Estávamos exaustos e abatidos devido às perdas que tivemos na nossa caçada.”

À medida que a mulher passava a mão na mordida provocada pelo grande lobo negro, novas imagens surgiram na mente dela. Ela viu o Chefe deitado na cama, tremendo e gemendo de dor e febre. Várias pessoas estavam ao redor dele tentando ajudá-lo a se recuperar dessa doença que não sarava. Amigos, familiares e outras pessoas estavam do lado de fora da cabana, se preparando para o luto, com a crença de que ele não sobreviveria. O corpo dele se contorcia, com aquelas pessoas segurando-o pelos pulsos e pernas. Vários remédios e orações não estavam surtindo efeito.

Eu não conseguia entender muito bem o que eles estavam dizendo. Era muito agitado e muito barulhento. Tudo o que eu sentia era febre e dor. Mas do nada, senti algo queimando mais forte em mim. Algo que estava querendo se libertar.

No lado de fora da casa, em meio aos relatos do Chefe para a Anciã, um dos caçadores que guardava pelo lado de fora avistou a lua emergindo nos céus negros da noite. Ela estava cheia, brilhando em tom de branco e com uma borda azul fina.

Em meio aquele caos, o corpo daquele homem domado começou a reagir. Uma das pessoas avistou os pelos crescendo dos braços e pernas do Chefe. Pelos de cor branca. A boca dele salivava e os olhos estavam fechados, com a cabeça se mexendo para várias direções. O braço direito se levantou com força, tirando as mãos de um caçador de cima do pulso. Isso o deixou assustado. Em seguida, notaram as orelhas e a boca dele se assumir uma aparência de lobo. Garras cresceram e dentes ficaram visíveis por entre a mandíbula e o maxilar. Com receio de que aquele homem ferido, deitado em leito à espera da morte, fosse se transformar em algo terrível, aquelas pessoas correram para imobilizá-lo, tentando prender ele com correntes e pregos grossos para serem enfiados na superfície de madeira daquele leito.

Entretanto, eles não faziam a menor ideia da incrível força que aquele homem, transformado em lobisomem, teria. Quando os olhos dele se abriram, não era mais de um ser humano, com o fundo branco e a íris verde. Era tudo preto. Em seguida, ele partiu as correntes em pedaços, jogando as pessoas que estavam em cima pra longe. Alguns deles atravessaram as paredes de tecido da cabana. Outros foram arremessados pela porta, assustando o guarda e as demais pessoas que estavam ao redor do lugar. A estrutura de tecido se desfez em cima do lobisomem de pelos brancos, com as garras atravessando a superfície grossa e rasgando-a violentamente. E do centro, o monstro com a cabeça de lobo e corpo de homem se levanta, soltando um uivo alto, assustando várias pessoas.

Caçadores se reuniram para enfrentá-lo com arcos, flechas, lanças, espadas, machados e escudos. Tudo o que conseguiram foi ir de encontro com a morte, pois o monstro desferiu vários golpes, atingindo-os em diferentes partes do corpo. Garganta, cabeça, rosto, braços, pernas, tronco e cintura. Tudo foi dilacerado, mordido, arranhado e despedaçado pela selvageria daquele que já foi humano.

Mulheres gritavam de medo, crianças choravam de medo e os jovens tremiam de medo. Todos correram em direções separadas, com o lobisomem uivando em meio àquela cena de horror. Chamas que acendiam as piras se espalhavam pelo chão quando eram derrubadas por pessoas desavisadas. E em meio ao horror, ele saltou na direção de várias delas, espalhando terror na tribo.

Foi neste instante que eu não conseguia parar tudo aquilo. Eu me tornei um monstro, igual aqueles Seres-Lobo. Minhas mãos, minha boca e o meu corpo, todo banhado de sangue. A minha mente estava coberta por uma densa névoa e eu não fazia a menor ideia de quem eu era mais, muito ainda das pessoas que estavam ao meu redor.” dizia o Chefe para a Anciã. Os olhos dele estavam encharcados de lágrimas diante das atrocidades acometidas.

Com aquilo dito, a mulher de idade retirou a mão do machucado provocado pelo grande lobo negro.

“Você é o Lobisomem Alfa. Não é à toa que você vive atormentado com essa história por vários anos.”

O Chefe balançou a cabeça dele pra frente. “Sim. Eu tenho guardado esse segredo há muito tempo. De você, de todas essas pessoas e das Garotas de Vermelha que uma vez foram para a floresta, à procura da Grande Mãe.”

A Anciã permanecia quieta daquela fala do Chefe. Os olhos dela expressavam os horrores da verdade contada por aquele homem.

“Todas aquelas garotas jovens, que tinham a mesma idade que a Nella. Nenhuma delas chegou perto o bastante para chegar na Grande Mãe. Todas caíram nas mãos da alcateia. Nas minhas mãos. A Grande Viagem é apenas uma forma de consolo dos antigos para as famílias de que as garotas de manto vermelho estariam chamando os Espíritos para nos salvar dos lobisomens.”

“Pelos Espíritos. Você tem ideia de quantas vidas foram perdidas? De quantas jovens precisaram ser sacrificadas para saciar seus instintos primitivos? Só pra manter essa… mentira?” perguntou a líder espiritual, horrorizada em ouvir aquilo.

“Sim.” respondeu o Chefe com um olhar diferente, voltado para o alto. Em vez de arrependimento, era de realização e soberba. Por fim, tornou a vê-la outra vez. “E é por essa razão que ela deve continuar. Só que sem você!”

Com aquilo dito, a Anciã sentiu algo atravessando a barriga dela. Arregalou os olhos e abriu a boca, sentindo o ar saindo por aquele lugar. E do nada, virou o olhar para baixo, avistando a mão direita do Chefe segurando um pedaço de madeira da cama perfurando o abdômen já macio e fraco. Sangue manchava o vestido branco dela à medida que crescia.

A Anciã reuniu o pouco que restara das forças dela, colocando a mão ensanguentada no rosto do Chefe.

“Eu vi uma breve recordação de seus filhos. Você criou todos eles… à sua imagem.” dizia a mulher em seus últimos momentos.

O homem manteve a estaca de madeira presa no abdômen da Anciã. Não demonstrou compaixão ou pena, pelo fato dele ter feito isso com ela. Porém, algo chamou a atenção dele. Algo que o deixou perturbado.

“De todos eles que você… teve com as suas vítimas, apenas um deles se mostrou diferente. Ele não é um monstro como eles e… muito menos… se parece como… você…”

Num instante, a mulher caiu no chão do quarto, estendendo a mão direita aberta, sem se mexer e sem falar mais nada. Soltou um longo suspiro, na qual várias chamas se apagaram por toda tribo. Como se o vento gelado do inverno passou com força. Várias pessoas ficaram sem saber o que aconteceu, mas sentiram o último suspiro de vida da Anciã ecoando por entre as casas e as cabanas. As sacerdotisas se ajoelharam em sinal de luto. A mãe de Nella e os outros imaginaram o motivo daquilo.

Ainda no interior do quarto daquela cabana, o Chefe observava para o corpo da Anciã, jazida naquele espaço gelado e arruinado. Pegou o manto de lobo, cobrindo os ombros por cima do casaco dele. Em seguida, desceu às escadas.

////

No lado de fora, os três homens adultos viram que esta era a hora de enfrentar o antigo Chefe. Entraram com os bastões de madeira a fim de atordoá-lo caso resistisse a eles. Porém, só conseguiram fazer era condenar as vidas deles para tentar domar uma besta selvagem. O homem de barba ruiva correu com o bastão na mão em direção ao Chefe, sendo jogado com força contra a janela do salão principal, saindo pra fora da cabana com cacos de vidro cortando o rosto e pescoço. Uma mulher gritou de horror ao ver aquela cena.

O açougueiro avistou o homem já no último degrau para baixo. Tentou agarrá-lo em um ataque frontal, sendo revidado pelo homem descontrolado ao ter a mão agarrando o pescoço com força e jogando-o contra uma coluna de madeira. O impacto quebrou a coluna do açougueiro.

Já o garoto que estava atrás do Chefe, correu com a arma de madeira na mão, acertando-o na nuca. O golpe, no entanto, quebrou a ponta lisa do bastão. Isso o deixou assustado. Um golpe desses o teria nocauteado, mas o Chefe tinha a cabeça dura para resisti-lo. Em seguida, virou-se violentamente, agarrando a cabeça do garoto e arremessando-o contra o chão. A pancada o deixou abalado, porém o Chefe o levantou pela cabeça, segurando-a com a ponta dos dedos pressionando firmemente, para depois batê-la novamente várias vezes no chão de madeira maciça, gritando com a raiva emanando do homem selvagem. Cada golpe desferido desfigurava o rosto do garoto, quebrando o nariz, a pele e o crânio. Sangue espirrava pra fora, com os olhos sendo expelidos com força. E na última batida, a pobre vítima não tinha mais rosto. Era uma chapa de carne achatada de forma irregular, com o restante da cabeça pintada de vermelho. A poça de sangue crescia no local, manchando os pisos de madeira e as roupas do Chefe.

O açougueiro tentava levantar a mão esquerda em direção ao garoto. Assistindo a cena do garoto sendo pulverizado até a morte pelo Chefe o deixou horrorizado. As tentativas de reunir suas forças para se levantar eram inúteis devido a pancada ter quebrado os ossos da coluna e a medula ter sido comprometida, impossibilitando-o de andar ou poder trabalhar outra vez. Em seguida, sucumbiu aos ferimentos.

Já para o homem que matou a Anciã e os três homens que entraram na cabana, estava perturbado pela última fala da mulher nos últimos momentos de vida dela. O único filho dele que ele teve como Lobisomem Alfa não era como os demais. E na mente dele, uma breve lembrança de um garotinho de cabelos castanhos que foi criado pela mãe dele há muitos anos. Porém, acreditou que ele tinha morrido quando fugiu da alcateia.

Castanho.” pensou o Chefe com relação a fala da Anciã.

No entanto, sentiu que várias outras pessoas entrariam na cabana para detê-lo. Optou por correr em direção à parede do salão, quebrando-a com pedaços de tora caindo no chão e outros sendo expelido pra fora. O som do objeto sendo destruído assustou as pessoas do lado de fora, com a maioria tremendo medo de querer entrar e poucos entrando com tochas e lanças.

Os caçadores não tiveram uma boa visão do interior daquele lugar. Três corpos mortos no salão principal, móveis destruídos, paredes arranhadas e um buraco do tamanho de um homem adulto e com força física descomunal. Dois deles subiram às escadas, retirando o corpo da Anciã em seguida. Foi o suficiente para a tribo entrar em desespero e luto por ela e por aqueles homens que se sacrificaram para deter o antigo Chefe.

////

Na floresta, Nella prestava atenção na história do garoto. O sol estava em pleno céu azul-claro, se pondo gradualmente no horizonte. Hvit permanecia deitada. Estava um pouco cansada, mas se recuperava aos poucos do encontro com os lobisomens.

“Eu não tenho muitas lembranças do tempo em que eu nasci, aqui nesta floresta. Mas eu lembro das histórias de como nós fomos criados pelo Alfa. E a maioria delas são bem sombrias, bem macabras.”

“Como assim, William?”

“Nella, você quis fazer parte da Grande Viagem para salvar a sua tribo, como os antigos de lá diziam. Estou certo disso?”

“Sim. É verdade. Mas o que a Grande Viagem tem a ver com isso?”

“Há muito tempo, eu lembrava das histórias das Garotas de Vermelho entrando neste lugar à procura da Grande Mãe com o dever de salvar a tribo de nós. No entanto, nenhuma teve sucesso.”

A garota do manto vermelho prestava atenção na história. Virou-se por um momento para ver a Hvit. A loba descansava deitada no chão. O peito e as costelas se mexiam conforme a respiração devagar dela. Novamente, tornou-se a prestar atenção em William.

“Isso foi há muito tempo. Havia uma Garota de Vermelho, como você. Tinha mais ou menos a sua idade.”

Nella imaginava, por meio dos relatos, o que aconteceu com aquela mulher citada na história contada por William, ganhando forma por meio de imagens. Ela tinha a mesma cor de cabelo e pele que o do garoto. Vestia roupas largas, cobertas pelo manto vermelho, botas de couro e cinto. O capuz que cobria o rosto dela balançava conforme os passos que dava adiante.

Era uma das primeiras Garotas de Vermelho, enviadas à procura da Grande Mãe. Ela foi a que mais chegou perto.

Quer dizer, que ela conseguiu encontrar com a Grande Mãe?” perguntou Nella.

Sim. A mulher que vivia isolada na floresta relatou para a Garota de Vermelho que ela era uma das sobreviventes de uma tribo devastada por um caçador que foi mordido pela manifestação do Grande Espírito do Lobo. Informou-a de que os lobisomens cresciam em números e da espada que jaz esquecida, capaz de derrotar o Alfa e pôr um fim aos ataques.” contou William.

Nella prestava atenção no guardião dela. Ficou se perguntando como aquela mulher conseguiu viver a vida inteira isolada na floresta e como foi que ganhou o nome de Grande Mãe, com a Anciã, o Chefe e outras pessoas sabendo da existência dela. Mas essa pergunta ficou para depois.

E o que aconteceu depois disso?

William retomou o relato da história. A Garota de Vermelho que estava na cabana seguiu adiante com a Grande Viagem, em meio à noite escura e fria. Tudo parecia calmo e quieto demais, como se ela estivesse sendo observada desde o início. Por fim, vários brilhos emergiram em meio à escuridão. Achou que seriam os Espíritos da floresta, porém, um deles se levantou, ganhando a forma de um lobisomem.

Ela seguiu em direção à espada, conforme as orientações da Grande Mãe. O único erro dela era acreditar que os Espíritos estavam protegendo ela. Por consequência, os lobisomens estavam observando ela desde o início, esperando pelo momento certo para atacar.

Nella ficou horrorizada em ouvir aquilo. Sentiu pena pela Garota de Vermelho. Não tinha alguém como o William para protegê-la ou impedi-la de seguir adiante com a Grande Viagem. E por meio dos relatos, imaginou aquela mulher correndo para longe, tentando salvar a vida dela. Os monstros de cabeça de lobo correram mais rápido do que ela, utilizando os membros superiores para impulsionar os passos com os membros inferiores. Não importa o quão rápido ela tentasse ser, eles a alcançariam. E foi o que aconteceu. Um deles, de pelo castanho-claro, saltou na direção da Garota de Vermelho, derrubando-a no chão.

Ela correu o mais rápido que podia, mas os lobisomens, conhecendo bem a floresta e sendo mais velozes do que um ser humano, conseguiram alcançá-la.” Em seguida, vários outros a cercaram por cima. Gritos de terror ecoavam por entre as árvores, implorando para que eles saíssem de cima dela. A mulher tentou se sacudir para tirá-los de cima, porém não adiantou. Eles a tomaram pelos pulsos dos braços, canelas e cintura, privando-a de se mexer.

Os lobisomens a dominaram como se ela fosse uma presa fácil, levando-a para o covil deles. A mulher tentou gritar por socorro, mas nada adiantou. Pois não havia ninguém naquele lugar que pudesse ouvi-la gritando e salvá-la.

Coitada.” disse Nella em seus pensamentos, assustada e horrorizada por ouvir aquilo.

Quando eles chegaram no covil, vários outros queriam tomar uma parte dela, chegando perto do grupo. Mas foram avisados que apenas o Alfa tinha o direito sobre ela.

Como assim ‘direito sobre ela’?

Os outros podiam caçar qualquer coisa, desde animais selvagens a humanos. Mas apenas as mulheres de idade jovial deveriam ser entregues a ele. Especialmente aquelas que vagavam na floresta.

Nella não compreendeu o porquê dessa separação feita pelo Lobisomem Alfa com relação às presas caçadas.

De ambas as formas, eles a levaram para uma espécie de altar erguido por eles no covil.

Altar?

Sim. Um altar dedicado para as cerimônias sombrias deles. Havia perto uma estátua de um grande lobo, sentado com as duas patas traseiras apoiadas no chão e a pata dianteira da direita levantada para o alto. Dentes visíveis da boca aberta e os olhos estavam apontados para o altar. Junto, havia ossos humanos espalhados pelo covil. Teriam sido de pessoas que foram mortas por eles durante as caçadas.

E o que eles fizeram com ela?

Com a Garota de Vermelho capturada e entregue ao altar, os lobisomens a prenderam pelos pulsos e canelas em correntes. Em seguida, eles subiram nela, arranhando, mordendo e rasgando cada peça de vestimenta dela, deixando ela exposta ao ambiente gelado. Ao mesmo tempo, eles a prepararam para ser recebida pelo Alfa.

Com base no relato, os olhos da garota que o acompanhou até aquela região da floresta se arregalaram. Ficou horrorizada ao imaginar as atrocidades daqueles monstros despindo a pobre Garota de Vermelho que seguia com a jornada dela na floresta há muito tempo.

Nas lembranças dele, a mulher ficou despida diante dos monstros. Marcas de arranhões eram visíveis na pele dela. Ela estava assustada, tentando se livrar das amarras de metal que apertavam os pulsos e canelas. Olhava para os lados, tendo os lobisomens preenchendo aquele lugar da floresta. E do nada, ouviu o som de passos ganhando intensidade. Quando olhou, avistou o líder da alcateia. Os pelos eram brancos, os olhos negros e presas afiadas. Aproximou-se dela com o focinho gelado, captando o cheiro da mulher. As bufadas dele a deixaram nervosa, com o peito se levantando e abaixando rapidamente.

O Alfa aproximou-se da Garota de Vermelho, sentindo o cheiro de cada detalhe do corpo dela enquanto andava ao redor do altar. E quando ela atendia as necessidades dele, ele subiu no altar, colocando-se ao redor da cintura dela. E foi neste momento que iniciou-se a cópula sombria de um lobisomem com uma humana.

Por ouvir “cópula”, Nella ficou assustada. Não sabia que eles tinham um lado doentio pelas mulheres humanas. Especialmente o Alfa por ser o progenitor de seus descendentes.

Cópula?!

Sim. Nós fomos criados por meio da união forçada, coercitiva e violenta do Alfa com as jovens mulheres que foram capturadas quando realizavam a Grande Viagem.” respondeu William, sabendo que a história que estava contando para ela seria cruel demais para ela se a Nella não estivesse preparada.

A jovem garota não conseguia imaginar de bom grado aquela mulher naquele estado deplorável, detida pelos lobisomens e aprisionada no altar e tendo o ventre dela tomado de forma invasiva e violenta. A primeira Garota de Vermelho da história de William sentia o corpo e a virilha dele se esfregando com força em cima da cintura dela. As mãos dele seguravam a placa de pedra um pouco acima dos ombros dela. Ela gemia e gritava de dor, sentindo o corpo dele esmagando seu ventre. Num instante, o tronco e a cabeça dele se levantaram, com um grande uivo sendo liberado, seguido de vários outros. Sinal de que ele havia depositado a semente dele em sua nova prisioneira.

A Garota de Vermelho sentiu que teria de carregar o novo filho do Alfa, do contrário a vida dela seria perdida caso acontecesse algo ao infante em desenvolvimento. Já aconteceu de algumas mulheres raptadas por eles serem mortas por não conseguirem gerar um filho que seja forte e digno dele. Ou por meio das garras daqueles monstros ou de serem abandonadas nuas em meio à floresta gelada ou jogadas nas correntezas.

Eu sabia que os lobisomens eram cruéis. Mas até este ponto? Eles não passam de criaturas monstruosas.” disse Nella, com os olhos encharcados de lágrimas.

“Por essa razão eu queria poupá-la disso. De impedi-la de você seguir adiante com a Grande Viagem em busca da Grande Mãe e do Matador de Lobos.” disse William com uma expressão séria, mudando gradualmente quando viu as lágrimas escorrendo dos olhos de Nella. A garota caiu em prantos.

“E a… Grande Viagem, que antes eu acreditava que era para salvar o nosso povo, era tudo mentira? Éramos preparadas para sermos capturadas pelos lobisomens e sermos usadas para gerar novos monstros?” perguntou Nella chorando, cobrindo o rosto dela com as mãos.

William se aproximou de Nella, colocando a mão esquerda ao redor dos ombros dela, puxando-a para perto. Hvit aproximou-se dos dois, fazendo companhia para eles.

“Nella, eu sei o quanto você sofreu nas mãos deles, da mesma forma que sabe o quanto eu sofri.”

“So-sofreu?”

“Sim. Pois a Garota de Vermelho da história que eu contei pra você, era a minha mãe.”

Ouvindo a fala de William de que aquela mulher sequestrada e violentada pelo Alfa era a mãe dele, a garota ficou assustada e um pouco sentida por ele.

“Sua mãe? E… o que aconteceu com ela?”

“Ela conseguiu me trazer para este mundo, apesar das circunstâncias. Era uma noite fria. Vários lobisomens tiveram que ficar ao redor dela para protegê-la e a mim do frio durante o meu nascimento. Quando eu nasci, ela me carregou no peito, mas viu que eu tinha me transformado neles, depois em um recém-nascido humano, chorando de fome e medo.” respondeu ele, com uma gota de lágrima escorrendo do rosto dele.

Nella sentiu a tristeza emanando do coração do garoto. Ela o abraçou, trazendo-o pra perto de seu corpo.

“Ela me criou até eu completar dois anos. Foi nessa época que eles a tomaram de mim. Eu podia ouvir os gritos dela. Eu… eu queria ter ido atrás deles, mas eu não pude. Em vez disso, eu corri pra bem longe. Lutei contra todas as adversidades desta floresta que me surgiram, até ser descoberto pela Hvit. Ela me criou e me protegeu até eu me tornar um jovem adulto.”

“Não foi à toa que ela está por perto. Ela sentiu o seu medo, a sua tristeza e a sua perda, da mesma forma que sentiu o meu medo e a minha tristeza de quando eu me perdi na floresta.” disse ela, acariciando o cabelo de William em meio ao abraço.

“Sim. Hvit sempre se mostrou uma espécie de mãe, guardiã e guia, disposta a nos proteger dos perigos desta floresta.”

Ao falar nela, a loba esfregou a cabeça dela em Nella e William, sendo puxada pra perto deles em um abraço aconchegante.

“Desde então vocês têm viajado por toda a floresta. E como foi que você aprendeu sobre os nossos costumes e a falar?”

“Em meio às viagens, encontramos com a Grande Mãe. Ela me fez essas roupas e me ensinou algumas coisas sobre vocês. Só a parte de me alimentar é que foi a mais difícil, já que eu me acostumei com o jeito da Hvit em caçar por comida.”

Ouvindo aquilo, Nella sorriu. Embora à primeira vista foi desagradável, ainda mais naquele episódio com o cervo, a garota humana aceitou a realidade de seu guardião.

“William, você disse que a Grande Mãe veio de uma tribo que agora não existe mais. Como foi que ela foi parar aqui na floresta?”

“Ela me comentou que era uma espécie de líder espiritual, assim como a sua Anciã. Ela vagou na floresta após receber os espíritos da floresta, guiando ela para cá. Agora, como foi que viveu a vida inteira aqui, sozinha e sem alguém da mesma espécie, isso eu não sei como te responder.” respondeu o garoto de cabelos castanhos.

“Certo. E em algum momento ela te falou da espada.”

“Sim. E talvez até tenha conhecido o caçador que enfrentou o primeiro Lobisomem Alfa.”

“Por essa razão, ela foi morta por eles.”

“Sim. O Alfa sabia da existência da Grande Mãe. Por isso ele mandou o Lobo Solitário para matá-la. O porém é que ele queria matar você também, contrariando as ordens do líder da alcateia.”

“E foi no momento que você me deixou. Você sabia que ele estava lá na cabana.”

“A Grande Mãe já estava morta antes de você ter entrado na floresta. E a razão pela qual eu não entrei com você era a minha própria natureza. Durante as noites de Lua Cheia, eu e os outros somos forçados a nos transformar e não podemos assumir a forma humana até amanhecer ou quando a Lua não estiver presente no céu. Mas nós podemos nos transformar a qualquer hora do dia, mesmo que a força de nossos poderes esteja reduzida.”

Muito embora os antigos falavam que eles pudessem se transformar durante a Lua Cheia, poucas ocasiões se mostraram como exceção. Igual aquela vez quando Nella avistou William se transformando diante do Lobisomem de pelagem negra. O mesmo monstro que matou Stephen, o pai de Nella.

“Porém, tem aqueles que não conseguem voltar à forma humana depois de transformados naqueles monstros. Exemplo disso é o Lobisomem Negro.”

A jovem moça da capa vermelha virou o olhar para a fogueira momentaneamente. Viu a chama ainda queimando o restante da madeira, balançando para o alto e soltando fagulhas e estalos. Pensava em todo mundo que ela conhecia. Principalmente na mãe dela, na Anciã, nas demais pessoas e no Chefe.

Em meio aquilo, ouviu a voz do garoto, chamando ela.

“Nella.”

Por ouvi-lo chamando ela pelo nome, Nella virou-se.

“Sei que não adiantaria falar pra você desistir da espada e disso tudo. Afinal, estamos perto de alcançá-la.” disse o garoto, virando o corpo em direção à entrada para a passagem montanhosa. Nella acompanhou o olhar dele, vendo a mesma coisa que ele.

“Eu sei, William. Sei que tive todas as minhas chances de voltar. Mas a minha mãe costumava me dizer que não devemos olhar para trás enquanto estamos no meio do caminho para alguma coisa.” respondeu ela. Virou o olhar dela para o garoto, com a última resposta para dar a ele.

“Por esta razão que vamos encontrar o Matador de Lobos e ir atrás do Alfa.”

William balançou a cabeça pra frente, respondendo afirmativamente para Nella. “Eu irei com você. Vai precisar de ajuda para enfrentar os outros e o meu progenitor.”

Nella sorriu. “Obrigada William. Por estar sempre ao meu lado, protegendo-me de qualquer coisa que me venha nesta jornada.”

“De nada. Nella.” respondeu o jovem rapaz de cabelos castanhos. Hvit passou perto dele, acariciando a cabeça dela nas pernas, sendo respondida com os dedos dele deslizando por entre os pelos da loba. “Bom, precisamos descansar. Especialmente a você, por cuidar da gente neste tempo que estávamos machucados.”

“Tem razão, William.”

Nella se levantou do chão, dirigindo-se na direção de um local adequado para se deitar, perto da fogueira. William e Hvit se acomodaram próximos do tronco de árvore que usaram para se sentar pra conversar com Nella. O garoto acrescentou mais gravetos na fogueira para mantê-la acesa.

Em seguida, ele se deitou no chão, olhando para Nella, dormindo tranquilamente. O peito dela se mexia conforme respirava. O braço esquerdo dela servia como apoio para a cabeça. Os olhos do garoto permaneciam abertos, vendo o rosto dela e dos lábios levemente corados de vermelho, parcialmente abertos à espera de um beijo.

William ficou um pouco nervoso vendo aqueles lábios. Ele nunca tinha experimentado essas sensações antes, como estar apaixonado por alguém da mesma espécie. Precisamente uma garota humana que seja bonita e tenha um jeito de pessoa paciente, calma e corajosa como a Nella.

A agitação foi grande a ponto dele se levantar, indo na direção de Nella. Evitou dar passos rápidos ou pesados a ponto de acordá-la. Apoiou primeiro o calcanhar no chão, depois o restante do pé, um atrás do outro. Hvit olhava para ele. Permanecia deitada e quieta com o garoto estando perto da Garota de Vermelho.

Estando perto dela, William inclinou o rosto pra frente para perto do rosto de Nella, prestes a pousar os lábios dele nos dela. Porém, ela se mexeu um pouco, tentando se acomodar no chão pra dormir. O garoto recuou por um momento, mas seguiu calmamente na direção dela, entregando um leve e gentil selo de lábios nos dela. Nella não reagiu assustada ou furiosa àquele beijo, mas não chegou a retribuí-lo por estar dormindo.

William se afastou dela, voltando para o lugar dele pra se acomodar no chão e dormir. O som da fogueira emanava ao redor deles, com a chama balançando ao redor dos gravetos. Naquela noite, os viajantes seguiram dormindo a fim de recuperarem as forças deles para a próxima viagem.

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